
É um privilégio assistir a um show na Sala Jazz Geraldo Flach. Ocupando literalmente a sala da casa da Ângela Flach e do Roni Barboza, o espaço proporciona uma experiência única de intimidade entre músicos e público. No último dia 14, a atração foi um dos maiores artistas do Brasil: Vitor Ramil. O cantor, compositor e violonista fez um show solo. De fato, o músico não estava exatamente só: nas canções, convocou parceiros notáveis, como João da Cunha Vargas, Bob Dylan, Paulo Leminski, Angélica Freitas e Charly García.
Uma das referências desse passeio poético, conduzido com execução instrumental e interpretação vocal impecáveis, pode ter passado despercebido por muitos na plateia extasiada: Federico Fellini. Na verdade, durante muito tempo nem mesmo Vitor tinha notado essa influência. Em 2018, o gaúcho participou no Instituto Ling do Meu Filme Favorito, projeto em que eu convidava personalidades culturais a escolherem um filme e debaterem comigo depois da sessão. Vitor escolheu de cara 8 ½ (1963), de Fellini. No clássico, um cineasta famoso interpretado por Marcello Mastroianni enfrenta um bloqueio criativo – como o próprio Fellini experimentara antes.
Segundo Vitor, o filme tinha causado uma forte impressão na sua juventude, mas fazia muito tempo que não o revia. Ao assistir novamente a obra-prima do mestre italiano, foi tomado de surpresa: percebeu que o verso “Coisas saindo do nada / Indo pro nada”, de Loucos de Cara, reproduz quase com as mesmas palavras uma das falas com que o personagem do crítico de cinema existencialista confronta o angustiado protagonista de 8 ½ – uma doideira que, de alguma maneira, está na estrutura tanto do filme quanto da música. Vitor compôs a canção em 1987, e disse não lembrar se essa “contaminação felliniana” foi na época consciente ou não. A grande arte está sempre conversando com a gente, mesmo quando sussurra de maneira sub-reptícia.
A obra de Vitor Ramil convoca: “Vem, anda comigo pelo planeta”. Mas nem preciso sair de casa e pegar carona no carro que vem: nasci e cresci no Bom Fim e moro há alguns no Rio Branco, coincidentemente na mesma rua onde Vitor tem um apartamento. Apesar dessa familiaridade com os bairros citados em Ramilonga, música que me acompanha há décadas, foi só neste recente show que o verso “Noites no Rio Branco, tardes no Bom Fim” adquiriu um sentido profundamente pessoal para mim. Ares de milonga vão e me carregam por aí.




