
Encapsular o tempo em uma lembrança, um “memento”, é uma obsessão da arte ocidental em que a fotografia e depois o cinema de alguma maneira lograram certo êxito. A foto e o filme têm esse poder ambíguo de manter e matar o instante, perpetuando-o como espectro. Somos assim fascinados pela imagem capturada, que entendemos como aliada nesse embate inglório contra a inexorável passagem dos anos, do tempo, da vida.
As imagens não cessam de falar, e seu discurso nunca é o mesmo. “Cada pessoa merece um filme. Ninguém é um figurante no país das imagens”, afirma a realizadora franco-argelina Dominique Cabrera no documentário cujo título pode ser traduzido como O Quinto Plano de ‘A Pista’ (2024). O filme é uma curiosa investigação familiar a partir de um episódio fortuito: o primo da diretora julgou ter reconhecido a si mesmo, quando criança, e os pais, fotografados de costas observando os aviões pousarem no aeroporto parisiense de Orly, ao assistir a uma sessão de A Pista (1962). Clássico do cinema moderno, o curta-metragem de Chris Marker é uma ficção científica filosófica sobre um homem que volta literalmente ao passado graças a suas lembranças, exibidas na tela como uma sucessão de fotos – registradas pelo cineasta em encenações com atores, mas também clicadas em diversos ambientes com pessoas comuns, sem o conhecimento delas. O tal quinto plano de A Pista é justamente esse instantâneo com os supostos parentes da diretora. Três figuras anônimas, de costas para nós, de frente para o futuro.
As imagens do passado são esfinges cujas decifrações nunca esgotam seu enigma. Em cartaz ainda por aqui, o documentário Lumière! A Aventura Continua (2024), compilação de uma centena de filmes rodados pelos pioneiros irmãos Lumière entre 1895 e 1905, prova que o cinema é capaz de conjurar maravilhas desde seu nascimento, que encantam e provocam o público há 130 anos.
Hoje é o dia um. É um começo, mas também um eterno retorno – todos os anos começam hoje. Perdi minha mãe neste ano – digo, em 2025, esqueço que o calendário acaba de virar. Dia desses, topei de novo com uma foto dela carregando minha filha no canguru, no primeiro passeio do bebê recém nascido.
Minha mãe tinha então quase a mesma idade que tenho hoje. Diferentemente do retrato em A Pista, as duas olham diretamente para a câmera. No entanto, da mesma forma que aquela família longínqua em Orly, avó-mãe e neta-filha parecem interrogar: “O que vem por aí?”.



