
“Finja costume!”, ordenou a ricaça. A recomendação era dirigida a Michel Alcoforado, que almoçava com ela em um restaurante grã-fino de Miami. O antropólogo havia conhecido a conterrânea alguns dias antes, ao testemunhar no aeroporto os perrengues que a emergente e o marido passaram ao desembarcarem para uma estadia de 15 dias nos EUA sem levar sequer uma mala. “Vamos comprar tudo por aqui”, explicavam para os incrédulos agentes alfandegários. A cena despertou no jovem cientista social a curiosidade acerca dos comportamentos e maneiras de estar no mundo das elites nacionais, intuindo que esse estudo ajudaria na compreensão da complexa estratificação social no país.
O encontro inusitado rendeu anos depois uma tese de doutorado em antropologia social e o livro Coisa de Rico (Todavia, 2025, 235 páginas). Escrito com fluidez, humor e sarcasmo, o texto lembra o chamado “novo jornalismo” de escritores estadunidenses como Gay Talese e Tom Wolfe, que se imiscuíam em universos específicos a fim de produzirem relatos com um pé dentro e outro fora do tema abordado.
Não foi fácil para Alcoforado ser aceito entre os milionários brasileiros. Depois de levar muito chá de sofá com design, ghosting e até patadas, o pesquisador enfim conseguiu penetrar na bolha do privilégio graças à insistência, alguma sorte e um par de reportagens sobre seu trabalho publicadas em grandes veículos. Penou, mas colou no paletó bem cortado uma etiqueta de grife: antropólogo do luxo.
Descrevendo o modus vivendi tanto de herdeiros do dinheiro velho quanto dos novos-ricos, o autor relata episódios que evocam o ambiente afluente e excludente de O Talentoso Ripley, célebre romance policial de Patricia Highsmith. Felizmente, o talentoso Alcoforado não precisou matar ninguém para que sua mimese fosse aceita – com reservas – nas altas rodas.
Analisando diferenças e similaridades entre abonados de várias origens e códigos marcadores de distinção dos milionários, que servem tanto para os “de fora” quanto aos “de dentro”, o antropólogo do luxo sustenta que nossos endinheirados não se acham ricos: rico é sempre um outro, que tem – ou aparenta – ter mais. “No Brasil, ser rico não é uma condição, é uma relação. Do ponto de vista nativo, ninguém é rico, mas está rico em relação a”, conclui Alcoforado.





