
Desde que a música se desmaterializou, migrando do vinil e do CD – se quiser, você pode incluir a fita cassete aí – para os arquivos digitais e a etérea “nuvem”, perdemos muito da conexão substantiva com ela. Manusear a capa de um disco, apreciar sua arte gráfica, ler as letras no encarte, informar-se sobre os músicos e as circunstâncias da gravação: pouco disso merece atenção atualmente. Conectar-se com o objeto disco é coisa de um tempo passado, experiência tátil e visual mantida ainda viva apenas pelo fetichismo dos colecionadores.
Por outro lado, a troca de arquivos digitais e, especialmente, os serviços de streaming possibilitaram o acesso a virtualmente toda a música do mundo – ou quase toda. Com curiosidade e tempo, é possível escutar tudo o que você quer ouvir e aquilo que nem sabia que queria – como diz o Gilberto Gil. No entanto, essa brincadeira tem uma pegadinha chamada algoritmo, que está sempre pronto a nos empurrar aquilo que esperamos e merecemos – segundo o juízo dele, claro.
Até há uns 10 anos, o algoritmo fazia parte da minha vida tanto quanto o nêutron e a mitocôndria: sabia que estavam por aí, mas nunca dei muita bola para eles. Continuo ignorando solenemente a presença e a função desses dois últimos tipos, mas, de uns tempos pra cá, o algoritmo não só se impôs no meu cotidiano como não larga mais do meu pé. É um tamagotchi que alimento cada vez que interajo na internet – ou seja, o tempo todo.
Dado que é inescapável circular no mundo virtual sem estar acompanhado por esse sujeito tão pró-ativo, tento tirar proveito da sua insistência. Estou aberto a conferir suas sugestões, particularmente as musicais, que devem corresponder em alguma medida ao que escuto nos streamings. Graças a essas dicas, confesso, tenho descoberto artistas, álbuns, gravações e sonoridades que ignorava, tanto novidades quanto relíquias.
Cuidado, porém, com o canto da sereia algorítmica: a facilidade do acesso e a reiteração daquilo que já agrada estimula a preguiça e entorpece o interesse pelo desconhecido. É preciso usar a ferramenta tecnológica a favor da ampliação do gosto, do conhecimento, do prazer estético. Tudo que é bolha desmancha no ar.



