
O porto-alegrense é rueiro. A gente não pode ver uma feirinha orgânica, umas bancas com antiguidades na calçada, um par de trailers vendendo cerveja e burger que já paramos, nos aglomeramos, topamos com as amizades – e lá se vai mais um dia. Certamente não é uma característica exclusiva nossa, mas por aqui a vocação para curtir a rua parece atender a algum chamado ancestral.
Conversando com uma autoridade em livro e literatura, envolvido com políticas públicas federais nessa área e frequentador de eventos literários mundo afora, escutei a sentença sem apelação: “Não existe no Brasil algo como a Feira do Livro de Porto Alegre em termos de popularidade”. Avaliávamos a movimentação no primeiro fim de semana da Feira, concordando que a circulação intensa e o interesse por livros e autores ultrapassam recortes culturais e sociais específicos para se apresentar como uma genuína celebração do encontro.
Esse nosso inato talento para o convívio enfrentou recentemente obstáculos como a pandemia e a enchente. Mas parece que em 2025 o porto-alegrense foi para a rua com especial gana, querendo desforra desses recolhimentos forçados. Na área da cultura, este segundo semestre vive um engarrafamento notável de festivais artísticos, muitos ao ar livre, que têm reunido milhares de pessoas a cada final de semana. E vem aí o Noite dos Museus no próximo dia 29, com cerca de 40 espaços de cultura e memória oferecendo uma programação artística que se espraia também por ruas e praças de Porto Alegre.
Tenho uma teoria de botequim para explicar, ao menos em parte, essa vontade de ajuntamento. A capital gaúcha não é um povoado, mas também não é uma metrópole. Mantemos muitas características provincianas. Aliás, muitos de nós nem mesmo nascemos aqui: até uns 30 anos atrás, em alguma reunião na mesa do mesmo bar talvez em que matutei essa tese, provavelmente eu faria parte da minoria porto-alegrense entre amigos oriundos de cidades do Interior. Aposto que os costumes da vida nesses lugares, como colocar a cadeira na calçada para assuntar com a vizinhança e olhar o movimento na praça central, reverberam no jeito de ser de quem veio morar aqui. Atavismos que encontram eco nos próprios nativos, já que Porto Alegre gosta de lembrar do tempo em que era pequena e mais acolhedora.



