
No ensaio Por que ler os clássicos, o autor italiano Italo Calvino propõe uma série de definições aproximativas do que faz um livro essencial. Pois o título desta coluna parafraseia Calvino para abordar aqui um fenômeno que noto crescente entre o público local: o interesse pela música clássica. Não é de hoje que os gaúchos são receptivos à música erudita, ou de concerto, ou clássica, ou como queiram chamá-la. Há por aqui toda uma respeitável tradição de composição, aprendizagem e interpretação da “música culta ocidental” — outra forma empolada e colonialista de se referir a esse rico e heterogêneo repertório.
No Brasil, entretanto, a música clássica ainda é escutada por poucos. Os motivos passam por questões de educação formal, pertencimento sócio-cultural, identificação simbólica, acessibilidade material. No Rio Grande do Sul, os movimentos para popularizar esse tipo de música multiplicam-se com êxito, indo do Festival Internacional Sesc de Música em Pelotas à Orquestra Jovem Recanto Maestro, além de diversas formações e atividades espalhadas pelo Interior. Em Porto Alegre, os concertos concorridos da OSPA, as montagens lotadas da Companhia de Ópera do Rio Grande do Sul, o exemplo de inclusão social da Orquestra Villa-Lobos e as apresentações sempre muito disputadas promovidas por iniciativas como Bach Society Brasil, Musical Évora, Concertos Capitólio, Casa da Música POA e Solo Piano, entre tantas mais, indicam que existe um público atento e interessado por aqui. A Rádio da Universidade, emissora da UFRGS que há décadas dedica sua programação à difusão da música erudita, é testemunha de que há ouvidos abertos por aí.
Já que nem Calvino respondeu cabalmente a pergunta de seu artigo, também não darei conta da provocação que fiz. Naquele texto — curiosamente agora também “clássico” —, o escritor elencou 14 propostas de definição. A que eu mais gosto não está na lista e aparece no final, quase como uma capitulação diante da impossibilidade de fechar a questão: “A única razão que se pode apresentar é que ler os clássicos é melhor do que não ler os clássicos”. Vão por mim: ouvir os clássicos é muito melhor do que não ouvir os clássicos.




