
Em um cenário de tensão pré-eleitoral, o fechamento dos consulados dos Estados Unidos no Brasil, inclusive a seção de Porto Alegre, alimenta teorias da conspiração sobre uma eventual interferência americana nas eleições brasileiras ou até uma possível intervenção.
Tudo isso é reforçado pelo contexto: guerra comercial em torno do tarifaço, a aproximação entre a família Bolsonaro e Donald Trump e informações, nas últimas horas, sobre um suposto financiamento do governo dos EUA a ações contra o Supremo Tribunal Federal (STF), que levaram a Advocacia-Geral da União (AGU) a acionar a Polícia Federal (PF) e a Procuradoria-Geral da República (PGR) para investigar o tema.
As poucas explicações dadas pela própria Embaixada dos EUA, em Brasília, sobre as razões da medida amplificam essas teorias conspiratórias.
No entanto, esse tipo de atitude faz parte dos protocolos adotados pelo Departamento de Estado ao redor do mundo em cenários de maior tensão, especialmente quando representações americanas podem se tornar alvo de protestos ou mesmo de ameaças. Na eleição de 2022, a embaixada americana emitiu alertas de segurança aos cidadãos dos EUA, recomendando atenção a manifestações, distância de protestos e acompanhamento de possíveis bloqueios de vias. Na ocasião, porém, a própria representação dizia esperar que a votação transcorresse de maneira relativamente tranquila na maior parte do Brasil.
O que ocorre agora é mais forte, um grau a mais na escala do protocolo de segurança adotado em representações no Exterior: a missão dos EUA suspendeu o atendimento presencial na Embaixada em Brasília e nos consulados de São Paulo, Rio de Janeiro, Recife e Porto Alegre, orientando inclusive americanos que necessitem de assistência emergencial a não se dirigirem fisicamente às instalações.
A decisão ocorreu após uma ameaça contra a embaixada, que o Departamento de Estado levou a sério. Nesses casos, os Estados Unidos costumam “pecar pelo excesso”.
A suspensão também ocorre em um ambiente de segurança mais sensível em Brasília. Na quinta-feira (1º), uma suspeita de bomba nas proximidades do STF mobilizou a Polícia Militar e o Esquadrão Antibombas. Um homem de 28 anos foi detido depois de arremessar uma mochila nas proximidades da Corte. Após a inspeção, a presença de explosivos foi descartada. Dentro dela havia apenas objetos pessoais.
Além de ponderação, nesse cenário de tensões, é preciso separar as coisas. Não há informações que permitam ligar o fechamento das representações diplomáticas com uma eventual tentativa de interferir na eleição. Mas também seria ingênuo analisar a decisão como se os Estados Unidos fossem um espectador distante deste processo eleitoral.
Washington sempre foi um ator presente no ambiente político brasileiro. Neste ano, ainda mais, seja pelas disputas comerciais e diplomáticas, seja pela relação de Trump com a família Bolsonaro, seja pelas acusações e suspeitas de interferência que passaram a integrar o debate público.
Isso aumenta a exposição simbólica das representações americanas: para grupos descontentes com a atuação dos EUA, uma embaixada ou um consulado pode funcionar como representação física dos EUA no Brasil.
Quanto maior o envolvimento, concreto, real, ou percebido pela população ou grupos de interesse, dos Estados Unidos no debate político brasileiro, maior tende a ser também a preocupação americana com a segurança de suas próprias instalações.
Por terem se tornado um ator mais visível nesta eleição, é natural que os Estados Unidos se comportem também como um potencial alvo das tensões que a cercam.




