
O jornalista Vitor Netto colabora com o colunista Rodrigo Lopes, titular deste espaço.
Talvez você já tenha ouvido falar sobre soft skills — as habilidades comportamentais. Borja Castelar, ex-diretor do LinkedIn para a Europa e América Latina, prefere chamá-las de human skills, ou habilidades humanas.
O executivo, que é referência mundial em liderança, inteligência artificial e vendas, estará nesta sexta-feira (2) no CONGREGARH, um dos maiores congressos de gestão de pessoas do sul do Brasil, promovido anualmente pela ABRH-RS (Associação Brasileira de Recursos Humanos – Seccional Rio Grande do Sul), em Porto Alegre.
Ele conversou com a coluna sobre inteligência artificial, gestão e comportamento humano.
Qual o principal assunto que você vai abordar no evento em Porto Alegre?
Será sobre o que as pessoas chamam de soft skills, de habilidades brandas, de habilidades sociais, tem muitos nomes. Mas falo de "human". Não gosto do termo soft, porque soa como menos importante. Gosto de falar de human skills, de habilidades humanas. São as habilidades mais importantes para triunfar na carreira. E nunca aprendemos sobre esse tipo de habilidade, porque, no sistema educativo, só aprendemos sobre habilidades técnicas. Há pesquisas, uma delas de Stanford, diz que 85% do sucesso profissional depende de habilidades humanas, de human skills. E não deveria ser uma surpresa. Comunicação é uma human skill. Quem triunfa não é quem mais sabe, é quem melhor comunica. Isso tem de ficar muito claro. Você pode ser um (uma nota) nove tecnicamente, mas, se você é um três em comunicação, você sabe como vai ser percebido. Como um três, vai levar levar uma vida de três, vai ter um trabalho de três. Então, o foco da minha fala será sobre as human skills, as habilidades humanas. Por que são tão importantes e como a gente pode melhorar esse tipo de habilidade, focar nas nossas fortalezas, autoconhecimento.
Que outros exemplos e explicações podemos trazer para soft skills ou human skills?
Basicamente, são as habilidades que nos ajudam a nos relacionarmos com outras pessoas. Ou com nós mesmos. Comunicação, colaboração, inteligência emocional, criatividade, pensamento crítico, tudo isso são human skills. Por outro lado, há as habilidades técnicas, o que você aprendeu a vida inteira: matemática, inglês, geografia, você faz um teste, uma prova, e tem um resultado. Todos sempre têm dois mundos na hora de aprender habilidades humanas. O mundo das hard skills, das habilidades técnicas, e o mundo das human skills, ou soft skills, ou habilidades sociais, ou habilidades comportamentais. E aí está a chave do sucesso: como você se comunica, como você se conecta com outros seres humanos, sua criatividade, colaboração, persuasão. O problema é que o sistema educativo só ensina habilidades técnicas. É um sistema industrial, obsoleto, quebrado. O sucesso está no outro lado, nas human skills.
Por que o sistema educativo foca mais nas hard skills?
Porque surgiu na Revolução Industrial e quase não mudou. Naquela época, o importante eram as habilidades técnicas. No mundo da fábrica era muito importante seguir horários, ser obediente, muito técnico. Mas o mundo mudou completamente. Esse mundo já não existe, mas o sistema educativo ficou igual. Você vê fotos de uma sala de aula de 1930, e é assustadoramente igual ao de agora. Não mudou praticamente nada. Continuam ensinando o mesmo. Ficaram na época industrial. O que está acontecendo agora? A inteligência artificial está, cada vez mais, reduzindo a importância da parte técnica dos trabalhos. A dimensão humana está aumentando em importância. E, claro, deve haver uma revolução gigantesca no sistema educativo. Uma revolução humanística. Isso significa voltarmos às artes humanísticas: mais aulas de teatro para melhorar a comunicação, uma habilidade humana muito demandada. Mais música, pintura, para melhorar a criatividade, uma habilidade humana muito procurada. Mais esportes, para melhorar a colaboração, outra habilidade humana. Temos de voltar às artes humanísticas.
Há pesquisadores que apontam que a geração Z hoje dá mais importância para chefes que se importam com essas habilidades humanísticas. Hoje os líderes devem ficar mais atentos a isso?
Totalmente. As novas gerações, se elas não estão contentes e não têm um líder humano, empático e comunicativo, vão embora (das empresas). Elas não têm a paciência de outras gerações. Estão muito mais empoderadas também. Como líderes, temos de ser mais humanos do que nunca. Um bom líder tem de entender como dar propósito ao trabalho, dizer para que estamos trabalhando. É muito importante que um líder seja capaz de comunicar. Líderes empáticos sabem dar feedback, dão oportunidades para aprender. As novas gerações, se não aprendem, ficam entediadas e acabam indo embora. Um bom líder sabe dar oportunidades de crescimento. Não só promoções, mas oportunidades horizontais: colocar em uma área diferente dentro da empresa para que continue aprendendo. Um bom líder sabe que você tem de estar dando oportunidades de crescimento e de aprendizado constantemente. Um bom líder inspira por meio da comunicação. É um embaixador do propósito da empresa e sempre está procurando dar oportunidades de aprendizado. Um bom líder tem de ter qualidades muito mais humanísticas do que o gestor de antigamente.
Algumas empresas ainda relutam em entender isso. Haverá um momento no qual todos terão de encarar esse novo cenário?
É seleção natural, vai acabar acontecendo, porque as gerações mais antigas vão se aposentando e vão entrando as novas gerações. Pelo curso natural da vida, vai acontecer. É a mesma coisa com as human skills, com as habilidades humanas. Cada vez mais as empresas vão contratar por habilidades humanas. Trabalho com muitas empresas em todo o mundo. No velho paradigma industrial, contratavam principalmente por habilidades técnicas: por o título, experiência, e hard skill, a habilidade técnica. Mas o que acontecia com muitas empresas? Contratavam um programador, super técnico, muito bom, conhece um monte de linguagens de programação, mas, depois de um tempo, acabam o desligando. Por quê? Devido às habilidades técnicas. Porque ele não sabe se comunicar, não sabe colaborar, não é criativo. Muitas empresas, por necessidade, tiveram de mudar completamente, começaram a contratar por habilidades humanas. Eu posso contratar uma pessoa que saiba se comunicar, que saiba colaborar e aprender a parte técnica do trabalho com treinamentos internos. Isso também está acontecendo por necessidade, porque muitas empresas estão em um círculo vicioso. Contrato por habilidades técnicas, desligo por habilidades humanas. O sistema vai mudar naturalmente, vai demorar mais ou menos, dependendo da empresa e do lugar do mundo mas já está chegando para todo mundo, é questão de tempo.
É possível conciliar a IA e as human skills?
Está aí nosso melhor investimento: as human skills. Quanto mais avança a inteligência artificial, mais a parte técnica é menos relevante. E a parte humana vai aumentar. A gente não vai ser substituído nessa parte. Pode parecer que sim, mas não. Faz tempo que o cinema poderia ter sido feito por inteligência artificial. Mas os humanos querem ver humanos. A conexão humana nunca vai se perder. A empatia humana nunca se vai perder. A comunicação entre humanos nunca vai ser perdida. Temos de focar nas human skills. Em um mundo tão dominado pela inteligência artificial, nosso melhor investimento na carreira é melhorar como nos conectamos com outros seres humanos, como avançamos nossa criatividade humana. A criatividade humana é incrível, ainda não não encontraram nada parecido. A inteligência artificial é criativa com dados existentes. O ser humano cria novas indústrias. Então temos de voltar à inteligência humana.
E como as escolas podem melhorar no ensino das human skills?
Vi ocorrendo isso em alguns países: sentando, juntos, os setores educativo privado e público. Se sentarmos juntos, falarmos que precisamos de todos os lados, haverá uma mudança radical. Vivemos um sistema educativo nos últimos 150 anos, e a gente quase não mudou. Eu vejo meus familiares na Espanha, e estão estudando o mesmo que eu estudei. Isso é surreal. Temos de sentar com o governo e começar a colocar no currículo artes humanísticas. Temos de voltar àquilo que nos diferencia, o que a inteligência artificial não pode competir. De novo, na parte humana. Temos que aprender sobre matemática, história, mas temos que colocar aulas de teatro no currículo? Teatro, para mim, é um dos melhores investimentos que alguém pode fazer para melhorar human skills, sem dúvida. Por isso falo que é uma revolução humanística.
Recentemente, líderes das grandes empresas de inteligência artificial falaram sobre a necessidade de um freio no avanço da tecnologia. É necessário uma regulamentação?
Acredito que sim, temos de colocar limites, temos de ser inteligentes o suficiente para saber onde nos colocar, como humanidade, juntos, para decidirmos para onde queremos levar a inteligência artificial. É como uma faca que você pode usar para cortar cebola, que é a ideia original, ou para matar alguém. Temos de sentar para decidir que uso faremos. Não podemos ser tão idiotas de não tomar as decisões corretas de para onde queremos levar essa tecnologia. Sou tecno-otimista total. Acho que a humanidade vai ser inteligente o suficiente para levar a inteligência artificial para muito mais benefício do que para uma dimensão negativa, sem dúvida.




