
O jornalista Vitor Netto colabora com o colunista Rodrigo Lopes, titular deste espaço.
Há exatos 25 anos, no dia 11 de setembro de 2001, um avião atingiu a Torre Norte do World Trade Center às 8h46min (horário de Nova York). Poucos minutos depois, às 9h03min, um segundo avião atingiu a outra torre do complexo comercial da cidade mais movimentada dos Estados Unidos.
Tratava-se do maior ataque ao território americano desde o bombardeio japonês à base de Pearl Harbor (no Havaí, em 1941). O atentado às Torres Gêmeas deixou 2.977 vítimas fatais, além dos 19 sequestradores dos aviões.
Entre os sobreviventes, estava o gaúcho Larry Pinto de Faria Jr.. No marco da data, ele conversou com a coluna.

No dia 11 de setembro de 2001, no horário que o avião atingiu a primeira torre, como foi aquele momento?
Eu trabalhava no World Trade Center desde 1999. Era um dia normal de trabalho, uma manhã bonita de início de outono nos Estados Unidos. Estava tudo tranquilo, até termos aquele baque, uma coisa indescritível, difícil de explicar. Você está trabalhando em um edifício no centro de Nova York e, daqui a pouco, sente um estrondo tremendo, um barulho ensurdecedor, e o prédio balança. Uma experiência que eu tive, mas não gostaria que ninguém tivesse.
O que você estava fazendo naquele momento?
Naquele momento o mercado financeiro ainda não estava aberto. Estávamos arrumando planilhas, coisas da mesa, preparando os preços, conversando entre o pessoal. Praticamente 15 minutos para abrir o mercado. Estava todo mundo tranquilo, sem nenhum estresse de mercado ainda. Eu trabalhava na mesa que fazia (a parte do) Brasil. Era uma mesa que fazia dólar futuro contra real. Éramos quatro brasileiros e dois americanos. Três deles trabalhavam no World Trade Center quando houve um atentado à bomba sete anos antes, na garagem. Quando deu o estrondo, o cara que estava ao meu lado, um americano, disse: "É uma bomba, isso é bomba". Eu sentava perto da janela. Passou alguns segundos, e começou a cair tudo. Caiu uma bola de fogo, vidro, pedaços, estilhaços. Eu disse: "Não, isso aqui não é bomba, isso aqui é um avião". E aí, todo mundo olhando um para a cara do outro, e o prédio balançou. Aí eu olhei para o meu chefe, ao meu lado, e disse assim: "Eu vou embora, eu não vou ficar aqui". Pegamos as coisas e saímos pela escada de incêndio. Tinha três saídas de emergência, quem sentava em um setor saia por uma, os funcionários do outro setor, pela outra. A gente tinha que evacuar o prédio o mais rápido possível.
Você trabalhava em qual andar?
Eu trabalhava no 25º andar.
Como foi a fuga?
Uma das coisas que mais me marcou é que descemos sem nenhuma pessoa tentar passar à frente uns dos outros, ninguém forçou passagem, todo mundo foi descendo. Sempre fiz uma analogia ligada ao futebol: imagina um jogo importante que o teu time perdeu, terminou o jogo e está todo mundo saindo com a cabeça baixa, ninguém está falando um com o outro, todo mundo tranquilo, não houve nenhuma situação de pânico até chegarmos ao 14º andar. Quando o avião bateu, criou bolas de fogo, pedaços do avião que caíram, e ele caiu em cima de uma marquise, e ficou muito fogo e muito calor naquela parte. E naquela parte onde caíram esses destroços, criou-se um calor muito grande. As pessoas que estavam naquele andar foram para a rua, foram para as escadas e criaram uma necessidade de querer descer e um tumulto. Quando chegamos ali, já estava engarrafado, não descia mais ninguém. Ali deu um pouquinho de pânico, de pavor, porque as pessoas não estavam deixando a gente entrar para o andar, e a parte da escada de emergência estava completamente entupida. Entrei para esse andar, mas logo em seguida conseguimos abrir uma barreira, e saiu todo mundo para continuar a descida. Foi o único momento de pavor, porque eu fiquei com medo... Eu e todo mundo que estava junto comigo, preso em um lugar que estava começando a ficar bastante quente e sem possibilidade de sair, porque tinha tanta gente na frente e não conseguíamos nos mexer. Então, a descida foi tranquila até esse momento.

Neste momento, você sentiu medo de morrer?
Eu estava descendo. Um cliente meu, brasileiro, me chamou. Eu disse: "Pô, eu estou na escada, o que houve?". E ele: "Rapaz, os caras jogaram um avião no teu prédio, e agora jogaram outro na outra torre. Sai daí, rapaz, sai daí que eles estão atacando Nova York". Ali, eu fui me dar conta do que que estávamos passando, porque, até então, eu não sabia, achei que fosse um acidente de avião. Todo mundo que estava ao meu lado achava que tinha sido um acidente, não uma estratégia pré-determinada onde dois aviões atingiriam as duas torres, um em cada torre. Realmente, ali me deu medo de morrer, foi a hora que eu digo: "Tenho que sair daqui o mais rápido possível".
Quando chegou no solo, que olhou as torres, o que viu?
Bastante gente correndo, as brigadas de incêndio, o pessoal já formando cordão de isolamento para todo mundo sair pelo mesmo lugar. Só que me chamou a atenção, e foi uma coisa impressionante: a escada de incêndio terminava junto aos portões das saídas dos elevadores, que eu pegava todos os dias. Havia oito elevadores, e um deles saiu da caixa. Cortaram os cabos e ele caiu. Quando caiu, bateu no chão e saiu pela porta. Fomos conduzidos a sair do prédio. Quando a gente sai do prédio, que eu olho para cima, eu vejo as duas torres pegando fogo. Ali eu tive certeza de que o segundo avião atingira a outra torre. Quando eu saio na rua, que eu vejo aquela multidão, todo mundo correndo e olhando para cima, e o prédio pegando fogo, eu disse: "Meu Deus do céu, eu quero ir para o mais longe possível disso aqui". Comecei a correr, dei a volta no sul da ilha de Manhattan. Ali deu medo.
Quando pensa naquele dia, qual a primeira lembrança que vem à cabeça?
Não era a minha hora. Eu perdi tantos amigos, colegas, pessoas que eu conhecia... Eu saí dali e fui direto para a minha casa. Eu morava do outro lado do rio, em New Jersey, bem na frente do World Trade Center. Quando eu cheguei lá, estavam vários amigos brasileiros me esperando. Alguns outros que trabalhavam no edifício nunca voltaram. Teve um (amigo) que ficou no meu apartamento até a metade da tarde esperando para ver se a mulher dele ia voltar, e ela faleceu. Essas coisas foram as piores. Foi terrível, foi uma experiência que eu não gostaria que ninguém passasse. A esposa desse meu amigo trabalhava no andar 102 ou 103. Nenhuma pessoa acima do andar 95 sobreviveu.

Passados 25 anos há um peso diferente para o episódio?
Acho que sim. É um quarto de século. É uma coisa impressionante. E o que mudou? Mudou tudo. Mudou a aviação, a segurança, as relações entre países em função de proteção contra terrorismo... E eu diria que foi para melhor no aspecto de segurança, mas é difícil falar que mudou para melhor em função de um episódio tão triste, tão nefasto da história mundial. Atacar um prédio onde estão pessoas trabalhando, pessoas que não têm nada a ver com nenhum assunto, sofrendo e morrendo por um ato terrorista... Eu acho que mudou, mudou muita coisa.





