
Acompanho a ascensão contemporânea da direita radical na Europa desde 1999. Naquele ano, Jörg Haider e seu Partido da Liberdade (FPÖ) se tornaram notícia ao ficarem em segundo lugar nas eleições parlamentares austríacas, praticamente empatados com o conservador ÖVP. No ano seguinte, o partido entrou no governo em coalizão com o ÖVP. Haider não chegou a se tornar chanceler, mas, naquele momento, a chegada de um partido desse campo ideológico ao governo de um país da União Europeia (UE) foi tratada como uma ruptura do consenso político europeu do pós-Segunda Guerra Mundial a ponto de os vizinhos da UE adotarem medidas diplomáticas contra a Áustria.
Haider antecipou várias características que hoje reconhecemos em partidos como a Alternativa para a Alemanha (AfD), que venceu no domingo (6) as eleições na Saxônia-Anhalt, Estado da antiga Alemanha Oriental.
Com 43,8% dos votos, mais que dobrou seu resultado de 2021 e ficou a apenas três cadeiras da maioria absoluta no Parlamento estadual. A vitória abre a possibilidade de a Alemanha ter seu primeiro governo estadual liderado pela extrema direita desde 1945, embora os demais partidos ainda resistam a qualquer coalizão com a legenda.
De 1999 para 2026, ano após ano, vimos partidos populistas e de direita radical crescerem nos parlamentos nacionais — a AfD é hoje a principal força de oposição no Bundestag — e também no Parlamento Europeu. O Patriots for Europe, que congrega legendas como a Reunião Nacional, da França, o Fidesz, da Hungria, e o Vox, da Espanha, tornou-se a terceira maior bancada em Bruxelas, com 84 deputados. Mas, quando se trata de chegar ao Executivo, muitas dessas legendas ainda esbarram em uma espécie de cordão sanitário: partidos tradicionais, mesmo adversários entre si, unem-se ou recusam alianças para impedir que a extrema direita alcance a maioria necessária para governar.
A França é o exemplo mais conhecido dessa estratégia, chamada de “frente republicana”. A Alemanha tem seu próprio equivalente, a chamada Brandmauer, a “muralha de proteção” contra alianças com a AfD.
Mas até quando esse cordão sanitário conseguirá conter o avanço da extrema direita? Na França, a frente republicana foi decisiva em pelo menos quatro momentos eleitorais recentes. Em 2002, uma ampla mobilização levou Jacques Chirac a derrotar Jean-Marie Le Pen com mais de 82% dos votos no segundo turno. Em 2017 e 2022, o mecanismo voltou a funcionar, desta vez em favor de Emmanuel Macron contra Marine Le Pen. E, nas eleições legislativas antecipadas de 2024, desistências coordenadas de candidatos da esquerda e do centro ajudaram a impedir que a Reunião Nacional transformasse sua vitória no primeiro turno em maioria parlamentar. O problema é que o mecanismo vem se desgastando: Chirac teve 82,2% contra Jean-Marie Le Pen em 2002; Macron caiu de 66,1% contra Marine Le Pen em 2017 para 58,5% em 2022. A extrema direita deixou de ser uma anomalia e passou, em boa medida, a ser naturalizada como uma alternativa de poder.
A próxima grande batalha será em 2027. Além da França, Espanha e Itália deverão realizar eleições nacionais naquele ano. Por isso, a vitória da AfD na Saxônia-Anhalt é tão significativa: pode produzir uma onda de choque muito além das fronteiras alemãs. Na Espanha, o Vox, liderado por Santiago Abascal, vem crescendo nas pesquisas, impulsionado também pela recente crise migratória em Ceuta e pelo desgaste do governo de Pedro Sánchez na condução do episódio. Na Itália, Giorgia Meloni, dos Irmãos da Itália, exerce no poder um governo mais pragmático, sobretudo em política externa e na relação com a União Europeia, do que sugeria parte de sua retórica anterior. Ao mesmo tempo, surgiu um concorrente ainda mais à direita: o ex-general Roberto Vannacci, que deixou a Liga em fevereiro para fundar o Futuro Nazionale. Em junho, uma pesquisa chegou a apontar a nova legenda com 5,9% das intenções de voto, ligeiramente à frente da própria Liga.
Em comum, essas forças exploram problemas sistêmicos que os partidos tradicionais têm dificuldade de responder: custo de vida, estagnação econômica, insegurança em relação ao emprego e ao futuro, crise migratória, corrupção e descrença nas instituições. Uma França governada pela extrema direita produziria um abalo de dimensão muito maior do que qualquer avanço regional da AfD. Não apenas porque se trata da segunda maior economia da União Europeia, mas porque a França é um dos países fundadores do projeto europeu, potência nuclear, membro permanente do Conselho de Segurança da ONU e, ao lado da Alemanha, um dos pilares políticos da integração continental.
Ainda assim, do ponto de vista das forças políticas tradicionais, 2027 poderá ser apenas o preâmbulo de uma batalha ainda maior: as eleições para o Parlamento Europeu de 2029, as primeiras depois deste ciclo de pleitos nacionais. E o ponto de partida já é preocupante. As forças da direita radical, nacionalista e conservadora estão divididas principalmente em três blocos: além do Patriots for Europe, com 84 deputados, há o European Conservatives and Reformists (ECR), com 78, que inclui os Irmãos da Itália e o polonês PiS; e o Europe of Sovereign Nations (ESN), o mais radical dos três, com 25 cadeiras e do qual faz parte a AfD. Somados, são 187 dos 720 deputados do Parlamento Europeu — cerca de 26% de todas as cadeiras. É uma conta imperfeita do ponto de vista ideológico, porque há diferenças importantes entre os três grupos, mas ela dá a dimensão do peso eleitoral desse campo político no continente.
O cordão sanitário, portanto, será colocado à prova como poucas vezes desde o fim da Segunda Guerra. Se as forças tradicionais não conseguirem responder às angústias que alimentam esse movimento, 2027 poderá apenas adiar a realidade que virá, em 2029.
O desafio será hercúleo em um momento no qual a Europa está mais distante do guarda-chuva de segurança americano, obrigada a assumir parcela maior de sua própria defesa e confrontada com uma Rússia cada vez mais hostil. Nesse cenário, o crescimento de forças nacionalistas e eurocéticas, algumas delas abertamente favoráveis a uma reaproximação com o Kremlin, ameaça o equilíbrio entre esquerda e direita e põe em xeque o próprio projeto de integração europeia construído ao longo das últimas oito décadas.





