
A Saxonia-Anhalt, terra de Martinho Lutero, centro do Bauhaus e das bruxas de Hartz, tornou-se, neste domingo (6), um Estado alemão conhecido, mundialmente, pela possibilidade de vitória de um candidato de extrema direita, quase um século depois da ascensão do nazismo.
Ulrich Siegmund, da Alternativa para Alemanha (AfD), partido que já é a segunda maior força política do país, pode chegar ao poder, embora a maioria no parlamento local ainda seja incerta. Sem comícios gigantescos, apenas a bordo de uma motocicleta Samsun, o candidato defende a deportação em massa de imigrantes irregulares, serviço de saúde livre de estrangeiros e a descrição de família como apenas formada por "homens e mulheres".
Mais do que esse aparente absurdo - a Alemanha ter, em pleno 2026, um governador alinhado com políticas que remontam ao estupor dos anos 1930 e um partido avaliado pelos serviços de segurança do país como "de extrema direita comprovada" - o que quero discutir aqui são as contradições do discurso populista e a ideologia de prateleira que assola nossos dias.
Saxônia-Anhalt explica muito sobre a memória seletiva. Do fim da Segunda Guerra Mundial, em 1945, à queda do Muro de Berlim (1999) e reunificação alemã (1990), o Estado pertencia à antiga Alemanha Oriental (sob governo da URSS). Siegmund fez campanha resgatando essa identidade, por meio de símbolos, memórias afetivas e características associada à antiga RDA. Na campanha, por exemplo, ele apareceu andando na Simson, a motocicleta que virou ícone do país, e participou de eventos em que foi entoado o Auferstanden aus Ruinen, o hino da RDA.
- As pessoas querem seu velho país de volta - costuma dizer.
Mas ora... esse país "de volta" seria a Alemanha Oriental?
O comunismo?
Como isso pode estar associado a uma ideologia de extrema direita?
Daí a contradição. Siegmoun e a AfD não estão defendendo o marxismo, a economia planificada, a propriedade estatal dos meios de produção ou o regime de Partido Socialista Unificado. Longe disso. Eles são fortemente anticomunistas. Mas, na onda da Ostalgie, como ficou conhecida a nostalgia em torno da vida na Alemanha Oriental, o que interessa é a imagem idealizada de ordem, segurança, comunidade, identidade local e proteção em relação ao mundo exterior.
O regime comunista que desapareceu com a reunificação trouxe desindustrialização e profundas transformações econômicas e demográficas nas regiões da antiga Alemanha Oriental. O sentimento, entre os seguidores da AfD e parte dos eleitores, é de que as decisões passaram a ser tomadas pelas elites. No país, essa elite é Berlim. Na União Europeia, é Bruxelas.
Daí, a ideologia de prateleira, sobre a qual já falei em outras colunas. A AfD retira da memória aquilo que lhe interessa - o comunismo, o autoritarismo - e pega aquilo que é compatível com sua ideologia: o Estado forte, fronteiras controladas e até relação histórica com a Rússia. Ou seja, ressignifica a chave nacionalista, identitária e antissistema. Aliás, a AfD tenta construir uma narrativa segundo a qual os alemães orientais foram submetidos duas vezes a sistemas impostos de cima: primeiro, a Alemanha Ocidental, depois da queda do Muro. E, nos últimos anos, pelo chamado globalismo, instituições, elites, empresas e valores trazidos pela globalização.
Estou falando da Alemanha, mas poderia estar falando de qualquer região do Ocidente, entre Washington e Brasília.



