A frase “Acha que 2ª tenho que estar fora?” já se candidata a integrar a coleção de aforismos que ajudam a contar a história da infâmia na República.
Foi escrita pelo banqueiro Daniel Vorcaro ao ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), em 15 de novembro de 2025, quando a Operação Compliance Zero, da Polícia Federal (PF), se aproximava de seus negócios. Dois dias depois, o fundador do Banco Master foi preso.
Mensagens extraídas do celular de Vorcaro e obtidas com exclusividade pelos jornalistas Felipe de Paula, Fausto Macedo e Aguirre Talento, de O Estado de S. Paulo, revelam proximidade entre o banqueiro e Moraes que exige explicações. A frase acima é a "cereja do bolo", mas está longe de ser a única. Segundo as reportagens, os dois conversaram sobre o avanço das investigações e possíveis medidas nos dias que antecederam a operação.
Conforme as revelações, um contrato de R$ 131 milhões entre o escritório de Viviane Barci de Moraes, mulher do ministro, e Vorcaro teria sido editado em um arquivo do Word cujos metadados apontam para um perfil associado a Alexandre de Moraes. Isoladamente, um metadado não esclarece em que circunstâncias o documento foi alterado nem quem efetivamente realizou as modificações. Mas, diante do conjunto de informações reveladas, é um fato que precisa ser esclarecido.
Moraes tem a obrigação institucional de vir a público e explicar essas circunstâncias. Segundo o Estadão, desde 27 de março são solicitadas entrevistas e respostas à assessoria do ministro, sem esclarecimentos suficientes. O silêncio diminui o Supremo. Nenhum ministro da mais alta Corte do país está acima da lei.
Um detalhe das mensagens chama a atenção. No WhatsApp de Vorcaro, a mulher de Alexandre de Moraes aparece identificada como “Vivi Moraes”. Evidentemente, isso não prova qualquer irregularidade. Mas sugere familiaridade. A maneira como salvamos alguém na agenda do telefone pode dizer algo sobre o grau de proximidade.
A questão, obviamente, não termina no nome. Segundo as reportagens, diálogos extraídos do aparelho indicariam apelos, inclusive poucas horas antes da prisão de Vorcaro, para que Moraes procurasse o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, e o procurador-geral da República, Paulo Gonet, em relação à operação. Houve alguma tentativa de interferência? Moraes atendeu a algum desses pedidos? Procurou alguma das autoridades mencionadas? Se procurou, em que termos? Essas são perguntas objetivas e, portanto, passíveis de respostas igualmente objetivas.
É lamentável que mais uma camada desse escândalo venha à tona em pleno período eleitoral, quando o debate público deveria também estar concentrado em problemas urgentes do país — saúde, educação, segurança, crescimento econômico e mudanças climáticas. Mas o calendário eleitoral não pode servir de argumento para adiar uma discussão necessária.
A nuvem de suspeições sobre o Supremo obriga o Brasil a discutir que modelo de Suprema Corte deseja para as próximas décadas: a forma de indicação de seus integrantes, hoje prerrogativa do presidente da República com aprovação do Senado; o tempo de permanência no cargo; os mecanismos de transparência e prestação de contas; e, sobretudo, quais limites éticos devem reger as relações privadas de quem exerce tamanho poder.

