
O 7 de Setembro deste ano teve um espectador a quase 7 mil quilômetros da Esplanada dos Ministérios, em Brasília: Donald Trump, sentado em sua Resolute Desk, no Salão Oval da Casa Branca, em Washington.
Sob o lema “Soberania — A força que une o Brasil”, o presidente Lula transformou o tradicional desfile da Independência em uma demonstração calculada de força política, institucional e militar.
Em meio às disputas com os Estados Unidos, da crise tarifária às falas políticas que o Planalto entende como interferência externa, a mensagem foi de que o Brasil quer mostrar que decide seu próprio destino.
As duas horas de duração estavam previstas na programação, e a passagem de tropas, blindados e aeronaves faz parte da tradição da cerimônia. Mas houve nuances: durante anos, a esquerda brasileira manteve uma relação mais distante com a simbologia militar, enquanto o bolsonarismo apropriou-se politicamente das Forças Armadas, da bandeira e das cores nacionais. Lula agora tenta recuperar esses símbolos e associá-los à defesa do país diante de pressões externas.
Também foi apresentado um arsenal pouco visto no dia a dia, como os VANT (popularmente chamados de drones).
Há dinheiro acompanhando do discurso e imagem. No projeto de Orçamento de 2027, o governo abriu espaço extraordinário para projetos estratégicos da Defesa. Destinou R$ 12,7 bilhões para investimentos, superando a área da Saúde, que recebeu R$ 11,4 bilhões. O valor também é maior que Educação (R$ 6,8 bilhões), Segurança Pública (R$ 3 bilhões) e Saneamento Básico (R$ 1,3 bilhão). Em primeiro lugar, aparece Transporte, com R$ 13,8 bilhões, e envolve investimentos em rodovias e ferrovias, por exemplo. Duas semanas atrás, Lula acenou aos militares, ao dizer que "Defesa não é pra quando sobrar dinheiro":
— Temos que preparar o país não para a guerra, mas para a paz, e defender nosso território, nossas riquezas e nosso povo.
Recentemente, a Avibras, indústria bélica brasileira com sede em Jacareí, avançou na certificação de um míssil capaz de atingir 300 quilômetros de distância. O MTC (míssil tático de cruzeiro) foi testado pelo Exército e pela empresa na Restinga de Marambaia, no Rio. O armamento integra o sistema de artilharia Astros.
A imagem mais importante, entretanto, estava na tribuna. Lula trabalhou pessoalmente para ter ao seu lado Edson Fachin, Davi Alcolumbre e Hugo Motta.
Em meio ao escândalo que atinge o STF, o presidente conseguiu reunir os chefes dos Três Poderes, algo que não ocorreu no desfile do ano passado, e tentou projetar uma imagem de normalidade e coesão institucional.
A fotografia de união ocorre justamente quando as instituições exibem fissuras. Alexandre de Moraes e André Mendonça, protagonistas da crise aberta no Supremo pelo caso Banco Master, não compareceram. Fachin foi o único ministro do STF presente.
Até outros elementos do desfile ajudaram a ampliar essa narrativa. O governo colocou entre os eixos oficiais o enfrentamento à violência contra as mulheres e a Copa do Mundo Feminina de 2027, incorporando à celebração militar uma agenda social e feminina. Em março, a primeira turma feminina do Exército inaugurou os trabalhos.
No fim, o 7 de Setembro serviu a Lula em três frentes ao mesmo tempo. Para público doméstico, tentou recuperar símbolos nacionais que haviam sido apropriados pela direita. Diante da crise institucional, exibiu os chefes dos Poderes lado a lado. E, para fora, sobretudo diante de Washington, colocou soldados, equipamentos e autoridades sob uma única palavra: soberania.

