
O irmão Peter Gerard Carroll, da Província Star of the Sea, é o superior geral do Instituto dos Irmãos Maristas, a maior autoridade religiosa da Congregação Marista, que congrega instituições de educação no mundo, como a Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), e várias escolas como o Marista Rosário, entre outras, no Rio Grande do Sul.
O instituto nasceu em 2 de janeiro de 1817, em La Valla, na França, fundado por São Marcelino Champagnat, com o nome de Pequenos Irmãos de Maria, como um ramo da Sociedade de Maria. Irmão Carroll esteve em Porto Alegre, em agosto, ocasião em que concedeu a seguinte entrevista à coluna.
A educação enfrenta desafios em países em desenvolvimento como o Brasil, que lidam com tantas questões relacionadas à saúde, à segurança pública e a outras áreas. Como conciliar a falta de recursos e a desigualdade com a necessidade de investir em educação?
A educação não é um luxo em que as sociedades possam investir depois de resolvidos todos os demais problemas. Ela é uma das formas mais importantes de enfrentar esses mesmos problemas. Uma educação de qualidade contribui para o desenvolvimento humano, a coesão social, a saúde pública, as oportunidades econômicas e a cidadania ativa. Ao mesmo tempo, precisamos reconhecer as realidades difíceis enfrentadas por muitos países e comunidades. Governos, famílias e instituições com frequência precisam tomar decisões muito difíceis a respeito de recursos limitados. Como rede educacional internacional, nós, maristas, temos constatado que, mesmo em contextos de pobreza e desigualdade, o investimento em educação pode ter um efeito transformador, sobretudo quando dirigido aos mais vulneráveis. A tradição marista sempre procurou garantir que a educação alcance os jovens que, de outro modo, poderiam ficar excluídos. Acreditamos que as oportunidades educacionais não devem ser determinadas pela condição social ou econômica de uma pessoa. Embora eu não pretenda oferecer soluções para os desafios específicos que o Brasil enfrenta, fiquei impressionado com o compromisso dos educadores maristas daqui em unir excelência educacional a uma forte preocupação com a inclusão social e a dignidade humana.
Como a inteligência artificial deve ser usada na educação e qual é a perspectiva da rede marista sobre esse tema?
A inteligência artificial apresenta oportunidades notáveis e desafios significativos. Como qualquer tecnologia, seu valor depende do modo como é usada e das finalidades humanas a que serve. Da perspectiva marista, a IA deve apoiar a educação, e não substituir as relações humanas essenciais que estão em seu centro. Educar é mais do que transmitir informação. Envolve acompanhamento, pensamento crítico, formação ética, desenvolvimento emocional e o cultivo de virtudes e valores. Essas continuam sendo tarefas profundamente humanas. Por isso, estamos incentivando nossas comunidades educativas a se relacionarem de forma cautelosa com a IA, ajudando os estudantes a aprender a usar essas ferramentas com responsabilidade, ética e senso crítico. A IA pode enriquecer a aprendizagem, ampliar o acesso ao conhecimento e auxiliar os professores de muitas maneiras práticas. Ao mesmo tempo, os estudantes precisam desenvolver discernimento, criatividade, integridade e a capacidade de um encontro humano genuíno. Sou particularmente grato pelas recentes reflexões do papa Leão XIV sobre inteligência artificial em sua nova encíclica. É uma contribuição significativa para um debate global que afeta todos os setores da sociedade, inclusive a educação. O documento foi muito bem recebido e oferece um quadro de referência consistente para assegurar que o progresso tecnológico permaneça a serviço da pessoa humana e do bem comum. Ele nos lembra que a inovação deve ser sempre orientada pela responsabilidade ética e por um profundo respeito à dignidade humana. É muito animador que o Papa esteja assumindo a liderança nessa área tão importante.
A IA pode enriquecer a aprendizagem, ampliar o acesso ao conhecimento e auxiliar os professores de muitas maneiras práticas. Ao mesmo tempo, os estudantes precisam desenvolver discernimento, criatividade, integridade.
Existe hoje uma disputa pela atenção, com professores competindo com celulares e redes sociais pelo foco dos estudantes. No Brasil, os celulares foram proibidos em sala de aula, o que melhorou a concentração. Qual é a sua opinião sobre essa medida?
Os desafios impostos pela distração digital estão sendo vividos por escolas do mundo inteiro. Educadores, pais e estudantes buscam formas de estabelecer uma relação saudável e equilibrada com a tecnologia. Sei que o governo brasileiro aprovou leis restringindo o uso de celulares pelos estudantes nas escolas. Contudo, outras questões sobre políticas de uso de celular são mais bem decididas por quem está mais próximo da realidade educacional, ou seja, os gestores escolares locais, as autoridades educacionais, os professores e as famílias. Eu não pretenderia julgar o que é mais apropriado para cada contexto. De todo modo, em meu próprio país, a Austrália, alguns governos estaduais também proibiram o uso de celulares pelos estudantes nas escolas. Nosso governo nacional foi também o primeiro, creio eu, a impor restrições de acesso às redes sociais para menores de 16 anos. Ao que tudo indica, os pais apoiam essas medidas. O que parece claro, no entanto, é que os estudantes precisam de ambientes que favoreçam a concentração, a reflexão, o diálogo e uma aprendizagem significativa. Se determinadas medidas ajudam a criar essas condições, elas merecem consideração cuidadosa. Ao mesmo tempo, a educação também deve ajudar os jovens a aprender a usar a tecnologia com responsabilidade, já que as ferramentas digitais continuarão sendo parte importante de suas vidas. O objetivo final não é simplesmente restringir a tecnologia, mas ajudar os jovens a desenvolver a maturidade e a autodisciplina para usá-la com sabedoria.

O senhor diria que o carisma marista no Brasil tem características próprias em comparação com outros países? Percebe algo específico?
Uma das grandes forças do carisma marista é sua capacidade de se enraizar em culturas diferentes, permanecendo fiel à inspiração de São Marcelino Champagnat. Como visitante, e não como alguém que vive a realidade brasileira todos os dias, sou cauteloso ao fazer observações definitivas. As lideranças e as comunidades maristas locais estão em posição muito melhor para descrever a própria identidade e a própria experiência. Ainda assim, o que me chamou a atenção repetidamente no Brasil foi a vitalidade da missão marista, a forte parceria entre Irmãos e leigos maristas e a capacidade de aliar excelência profissional a um profundo compromisso com a ação social. Também me impressionaram o calor das relações e o forte senso de comunidade que caracterizam muitas obras maristas no país. A riqueza e a diversidade culturais do Brasil claramente influenciaram o modo como o carisma marista é vivido e expresso aqui. Ainda assim, os valores maristas fundamentais permanecem imediatamente reconhecíveis: simplicidade, presença, espírito de família, amor ao trabalho e um cuidado especial com as crianças e os jovens, sobretudo aqueles que estão em situação de vulnerabilidade.
Sobre sua visita a Porto Alegre: quais foram os principais objetivos e que percepções o senhor teve durante o tempo em que esteve nas instituições maristas da cidade? O Rio Grande do Sul ocupa uma posição de destaque no Brasil?
Estou nesta função há menos de um ano, de modo que meu principal objetivo era encontrar pessoas, escutar e aprender. Naturalmente, é também expressar minha gratidão, e a das lideranças do instituto, pelo trabalho notável que a missão marista vem realizando. Visitas como esta me permitem encontrar irmãos, leigos maristas, educadores, estudantes, dirigentes universitários e tantos outros que contribuem para a vida e a missão do Instituto. Durante minha passagem por Porto Alegre, fiquei especialmente animado com o compromisso com a qualidade educacional, a responsabilidade social e a inovação que observei em diversas instituições maristas. Também me impressionou a forte integração dos valores maristas às iniciativas educacionais e sociais. Como líder internacional, hesito em colocar uma região acima de outra. Cada região do Brasil contribui de modo importante para a vida e o desenvolvimento do país. Não há dúvida, porém, de que o Rio Grande do Sul tem uma história distinta, instituições educacionais fortes e uma contribuição cultural e econômica significativa para o país. Dentro do mundo marista, a região também desempenhou papel importante no desenvolvimento de iniciativas educacionais, sociais e universitárias cuja influência ultrapassou largamente suas fronteiras.
Este é o primeiro dos seus oito anos à frente do Instituto dos Irmãos Maristas. Qual foi o maior desafio que o senhor enfrentou até aqui nesta vasta instituição internacional e quais são suas expectativas para o próximo ano?
O instituto está presente em muitos países, culturas e contextos sociais. Um dos maiores desafios é encontrar formas de fortalecer a unidade respeitando a diversidade. O que é necessário em uma parte do mundo pode ser bastante diferente do que se faz necessário em outra. Ao mesmo tempo, tenho me sentido profundamente animado pela generosidade, pela fé e pelo compromisso de Irmãos e leigos maristas em todo o mundo. Apesar dos muitos desafios, permanece um forte desejo de servir aos jovens e de responder criativamente a novas realidades. Para o próximo ano, minha esperança é que continuemos a aprofundar nossa capacidade de escuta, discernimento e colaboração. O futuro da missão marista dependerá de nossa capacidade de trabalhar juntos, de permanecer próximos dos jovens e de responder com coragem às necessidades do nosso mundo, mantendo-nos fiéis ao nosso carisma. Uma iniciativa específica que esperamos avançar nos próximos 12 meses é a criação de uma Associação Internacional de Leigos Maristas, para que exista uma entidade internacional reconhecida para mulheres e homens, solteiros ou casados, que desejem se identificar explicitamente como maristas. Isso fortalecerá a identidade e o sentimento de pertença das leigas e dos leigos maristas e estreitará seus vínculos com os Irmãos. Também lhes dará uma identidade clara dentro da Igreja.
É possível identificar uma característica que defina o pontificado do papa Leão XIV até aqui?
Embora ainda seja relativamente cedo em seu pontificado, uma característica que se destaca é seu compromisso de dar continuidade e aprofundamento à visão do Papa Francisco. Há um claro sentido de continuidade em sua ênfase no diálogo, na missão, no cuidado com a dignidade humana e no enfrentamento dos desafios da sociedade contemporânea. Pessoalmente, isso me deixa muito satisfeito. Também me impressionou seu evidente apreço pelo papel da educação na vida da Igreja e da sociedade. Ele reúne uma sólida compreensão da educação católica e um profundo respeito pela contribuição que as congregações religiosas e as diferentes tradições carismáticas deram nesse campo ao longo de muitas gerações. Isso não surpreende, considerando que ele é agostiniano e foi Superior Geral. Merece destaque especial sua recente encíclica, Magnifica Humanitas, que trata da inteligência artificial e dos desafios éticos colocados pelas tecnologias emergentes. É uma contribuição importante e oportuna, que foi amplamente acolhida. O Santo Padre reconhece tanto os potenciais benefícios quanto os riscos associados a esses desenvolvimentos e oferece um quadro de referência fundado na dignidade humana, na responsabilidade ética e no bem comum. De modo mais amplo, o Papa Leão parece comprometido em ajudar a Igreja a se relacionar com o futuro com confiança, sem perder de vista os fundamentos evangélicos que orientam sua missão. Esse equilíbrio entre continuidade e abertura pode muito bem se tornar uma das características definidoras de seu pontificado.





