
Roberto Padovani é economista formado pela Universidade de São Paulo, administrador pela Fundação Getúlio Vargas e economista-chefe do Banco Votorantim, atual BV. Foi sócio por 10 anos da Tendência Consultoria e assessor do Ministério da Fazenda durante o Plano Real. Ele esteve em Porto Alegre em agosto para um encontro interno do banco. Conversou com a coluna sobre o cenário atual.
Há otimismo após a retomada das negociações entre Brasil e EUA sobre o tarifaço?
A avaliação de uma consultoria nossa, que fica em Washington, é de que esse tema tarifário vai continuar no radar, com idas e vindas. É um tema sobre o qual temos um viés mais negativo. Não que não possa haver negociações, que as coisas não possam ser conversadas. Mas achamos difícil haver uma mudança radical de cenário a favor do Brasil. Isso porque a política tarifária americana reflete uma estratégia geopolítica, que é o redesenho da ordem internacional. Esse redesenho é o de um mundo fragmentado: estão sendo criadas zonas de influência dos Estados Unidos e zonas de influência da China. O Brasil, teoricamente, está nos dois campos. Pode haver conversas indo bem com os EUA porque estamos na zona de influência deles e, em tese, não teriam interesse em atrapalhar seus aliados. Mas o que temos visto na gestão de Trump é justamente o confronto com aliados. Impõe tarifas, percebe os custos, volta atrás, depois impõe novas tarifas... É um tema que se arrasta. Não vemos uma perspectiva de que essas coisas mudem rapidamente.
A menos de um mês das eleições brasileiras, os economistas estão de olho nos programas de governo dos candidatos ou estão em compasso de espera?
A primeira coisa é, às vezes, contraintuitiva, mas é um aprendizado da minha carreira. O que acaba movimentando os mercados financeiros é sempre o fluxo global. Se você tem uma situação global tranquila, favorável, pode haver o desafio que for no Brasil, do ponto de vista econômico ou político, que os mercados não costumam reagir muito. A não ser em casos muito agudos, crises políticas muito agudas. Era o caso, por exemplo, do boom das commodities, no início dos anos 2000. O cenário era favorável. Assumisse quem assumisse, estava tranquilo. Aqui no banco, prestamos muito mais atenção em certos eventos americanos do que nos locais. Tem um debate fora do país sobre se o Banco Central americano irá manter os juros parados ou se subirá. Mantendo os juros parados ou subindo, pela literatura acadêmica, pelo padrão histórico, nunca foi bom para as economias sul-americanas. É um cenário de aversão ao risco. Teremos pela frente, em 2027 e 2028, um ambiente global que não nos ajuda. Quando a situação global vai bem, o estrangeiro nem olha com atenção para o que está acontecendo internamente aqui. Mas, quando o ambiente é de cautela, ele olha mais os detalhes: “Vou investir no Brasil? Vou, mas quero ter mais informações, quero estar mais seguro”. Então, os temas locais ganham relevância em cenários globais adversos. Se olharmos a lá para fora e a situação está instável, os temas locais ganham relevância, como a dívida pública. E isso está conectado com a eleição porque será o próximo governo que irá resolver o problema da dívida, seja ele qual for. E aí tem um ponto importante: houve nove eleições na história após a redemocratização, e essa talvez seja a disputa que terá o resultado com a margem mais estreita de todas.
Pode ser suscetível a questionamentos?
Se você não sabe o que vai acontecer, é natural que adote estratégias defensivas. Notamos, no mundo empresarial e financeiro, uma postura de aguardar por mais informação. Isso acaba se refletindo em volatilidade porque está todo mundo aguardando mais informação. Saem dados para um lado, saem dados para o outro. Como há baixa capacidade de antever o futuro, você fica muito preso aos dados de curto prazo. E aí os mercados ficam instáveis conforme os dados vão saindo. Estamos em um momento de imprevisibilidade e, portanto, de posturas defensivas.
Seria importante um sinal por parte dos principais candidatos de compromisso fiscal ou algum nome de eventual integrante da equipe econômica? Reduziria a incerteza?
Reduziria. Eu acho que tem um aspecto positivo: todas as candidaturas estão sinalizando ajustes. E esse não é um tema eleitoralmente atraente. Mas, a despeito disso, todo mundo está falando. Não é de se esperar que algum político, em período eleitoral, vá detalhar o que é esse ajuste fiscal. Essa falta de informações é compreensível. Mas uma coisa que me chama a atenção é a falta de sinalização de uma equipe econômica. Talvez a diferença desta eleição, algo que aumenta essa imprevisibilidade, seja a dificuldade de se saber exatamente quais são os nomes da próxima equipe. Se você soubesse quais são as equipes de cada candidato, ajudaria a reduzir a incerteza. Mas, curiosamente, a gente não tem isso.
Juro alto e crédito escasso. Mesmo empresas saudáveis têm relatado dificuldades para acessar crédito em condições razoáveis. O que precisa acontecer para o Banco Central conseguir cortar juros de uma maneira sustentável?
Em relação aos juros, acho que vale a pena entendermos por que eles subiram tanto, para 15%, que é o nível mais alto em 20 anos. Em 2024, o Banco Central reagiu, o que não é comum no Brasil, a um crescimento econômico excessivo. O PIB em 2024 estava em 3,4%. O crescimento potencial era estimado na ordem de 2%. Então, estava bem acima. Agora, o PIB potencial é uma coisa teórica. Então, olhamos os termômetros para ver se isso está funcionando. Ali, tínhamos vários termômetros: desemprego muito baixo, abaixo da média histórica, importações em alta, inflação em alta. Eram sinais de uma economia superaquecida. O Banco Central reagiu de forma surpreendente: deu um aumento de um ponto e anunciou mais dois aumentos de dois pontos no final de 2024. Mas, apesar de a forma ter surpreendido, tecnicamente foi um movimento correto. De lá para cá, a economia cresce, mas em um ritmo menor. O Banco Central teve sucesso em controlar o ritmo de crescimento. O crescimento hoje, mesmo com os estímulos para o ano eleitoral, está rodando na casa de 2%, ou um pouco abaixo. Isso permite, na nossa cabeça, que o Banco Central corrija uma parte dos juros. Então, saiu de 15% e, pelos nossos modelos, poderia chegar a uns 13,5%. Agora, 13,5%, convenhamos, ainda é muito alto. Então, o que precisa fazer para jogar essa taxa no nível que achamos que é neutro, entre 8% e 9%? A parte da equação que falta é colocar a inflação na meta. Não precisa esperar a inflação chegar a 3%, que é a nossa meta, mas tem que estar muito convicto de que a trajetória está assegurada. O Banco Central vai continuar nesse ritmo cauteloso, mas cortando a taxa. O problema, quando você tem dívida alta, é justamente ficar exposto a mudanças de cenário. E isso aconteceu, pegou muita empresa no contrapé. O que vimos ao longo de 2025 foram grandes nomes que estavam muito endividados tendo problemas. Aplicando isso ao crédito, você vai ter empresas tomando menos crédito.
Como o El Niño forte pode afetar a economia do RS?
Tem duas versões. Esse vai ser o terceiro El Niño de alta intensidade desde os anos 1980. Você não consegue estabelecer padrões muito bem definidos, mas o que sabemos, mais ou menos, é que o El Niño é úmido no Sul, quente e seco no Norte. E aí o pessoal pergunta: mas e o Centro-Oeste? Então, tem uma leitura de que talvez não sejamos muito prejudicado, o país como um todo, porque somos um país continental e o Centro-Oeste pode escapar. Outro debate, em relação ao Nordeste, é mais ou menos seguro dizer que vai sofrer. Em relação ao Rio Grande do Sul e à Argentina, há uma dúvida. Temos ouvido muitos especialistas dizendo que o clima úmido é mais regular. Então, significa dizer que não vai haver períodos de estiagem, e isso favorece a campanha, no interior do Rio Grande do Sul, e a produção agrícola. Mas também se fala que pode haver chuva em excesso. A única certeza é que um El Niño forte vai acontecer. Como vai impactar as diferentes áreas? É difícil dizer. A gente acompanha isso para saber o que vai acontecer com o preço dos alimentos e da energia. Há duas versões.
Passada a tragédia de 2024, qual é a percepção de risco dos investidores sobre o Estado?
Circulo muito no Estado. Nossos clientes do Rio Grande do Sul estão sempre em São Paulo, então eu troco muita informação. Uma coisa que acho curiosa é que a visão do gaúcho sobre o Estado é muito mais dura do que a do resto do país em relação ao Estado. O local tende a ser muito mais ácido, muito mais crítico. Olhamos Santa Catarina e Rio Grande do Sul: são Estados com uma característica peculiar e incomum no Brasil. Há uma conexão do agro com a indústria. A agroindústria é para valer. Pega a indústria metalmecânica no norte do Estado. Estive em Panambi. É impressionante essa indústria na cidade. O pessoal reclama: “Precisava ter uma cadeia de insumos mais bem estruturada”. Mas é inacreditável a história da cidade. Como você tem essa integração agroindustrial muito sólida, isso cria no Estado um tecido industrial e econômico muito poderoso. A principal conclusão disso é o mercado de trabalho no Sul do país, com taxas de desemprego consistentemente abaixo da média nacional. Você conversa com qualquer empresário, todos relatam muita dificuldade para encontrar mão de obra. Falta mão de obra. Isso tem um lado ruim, que é a pressão de custos nas empresas, todo mundo reclama, mas tem o lado bom. O lado bom é salário para cima, renda alta. E, por conta disso, como você tem um tecido industrial e uma renda persistentemente mais alta, os índices de inadimplência são historicamente mais baixos. Portanto, as condições de oferta de crédito são muito melhores no Rio Grande do Sul. É um Estado industrial muito completo.
Que tipo de investimento teria maior capacidade de mudar estruturalmente ou melhorar a economia aqui do Rio Grande do Sul?
O tema nacional se aplica bem ao Rio Grande do Sul. Todos os estudos mostram como o Brasil vai crescer. Ele cresceu no passado, como a maior parte das economias, incorporando investimento e mão de obra barata. Então, você vai lá e investe, tem mão de obra barata, baixa os custos e ganha mercado. Foi assim que todos os países cresceram. A China cresceu nos últimos anos por conta disso; o Brasil também, nos anos 1970. Só que chega um momento em que isso acaba, esgota-se a oferta de mão de obra, que é o que a gente já está observando há algum tempo. Aí você precisa aumentar a produtividade. Na prática, o que os estudos estão mostrando é que, no Brasil — e isso é muito verdadeiro em Santa Catarina e no Rio Grande do Sul —, o que é decisivo é a infraestrutura. O que poderia dar um salto para a economia gaúcha neste momento seria gastar pesadamente com infraestrutura.





