
O hidrogênio, elemento químico mais abundante do universo, é uma das principais apostas para a descarbonização do setor de transporte. Nos últimos anos, o país avançou na construção de um arcabouço legal para o setor, com a sanção do Marco Legal do Hidrogênio de Baixa Emissão de Carbono e do Programa de Desenvolvimento do Hidrogênio de Baixa Emissão de Carbono, ambos em 2024. Mas ainda enfrenta gargalos no estímulo a novos investimentos, segundo João Carlos Sávio Cordeiro, diretor da Unidade Energia do Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT) de São Paulo.
Durante a Lat.Bus, maior feira de transporte coletivo da América Latina, realizada em agosto, em São Paulo, ele conversou com Zero Hora sobre como o Brasil pode liderar a produção do chamado "hidrogênio verde". Confira os principais trechos:
Como o hidrogênio entra no cenário da transição energética?
Esse cenário trouxe uma série de desafios, e começamos a olhar as possibilidades. A mobilidade consome muita energia, principalmente de combustíveis fósseis. No agro, isso é gasto no cultivo, na colheita e nas máquinas. Consome muito e emite muito CO2. Começamos a buscar soluções. O hidrogênio não é uma novidade; há mais de 70 anos é pesquisado.
Por que o hidrogênio é chamado de "combustível do futuro"?
Há dois lados aqui: consideramos o combustível do futuro porque ainda não se conseguiu viabilizá-lo plenamente no presente (risos). Mas ele também é o combustível do futuro porque vai nos levar a uma sociedade de emissão zero. Você consegue usá-lo em ônibus, carros, caminhões e na indústria para baixar a pegada de carbono. É possível produzir hidrogênio no Brasil e usá-lo na Europa. O combustível fóssil tradicional está concentrado no Oriente Médio, gerando instabilidades e conflitos.
O hidrogênio pode ser produzido a partir de energia elétrica e água. Se eu tiver isso em qualquer lugar do mundo, com um eletrolisador, produzo hidrogênio. Essa é uma vantagem importante. E, se essa eletricidade for de fonte renovável, entra o "verde".
JOÃO CARLOS SÁVIO CORDEIRO
Diretor da Unidade de Energia do Instituto de Pesquisas Tecnológicas
O que falta para viabilizá-lo?
O grande desafio é baixar o custo. Já existem fabricantes de automóveis com o produto pronto. Levei a diretoria do IPT a bordo de um carro movido a hidrogênio de São Paulo a São José dos Campos. E não era um protótipo, é o que chamamos de TRL-9. A partir de eletrólise, produzimos hidrogênio, comprimimos, colocamos no tanque do veículo e rodamos com autonomia de aproximadamente 600 quilômetros, sem precisar reabastecer. A dificuldade atual é ganhar escala.
O que falta para quebrar esse impasse?
Precisamos quebrar essa história de "quem veio primeiro, o ovo ou a galinha": "não produzo porque ninguém usa, ou não uso porque ninguém produz". O papel do IPT é justamente quebrar esse ciclo vicioso. Temos um laboratório onde produzimos hidrogênio para mobilidade e também para gerar amônia, metanol e outros químicos derivados, mostrando que o modelo funciona na prática.
No RS, temos centenas de pessoas que dependem do trabalho em áreas carboníferas? Como fazer uma transição justa?
É uma realidade. Você está há centenas de anos trabalhando desse jeito, com as termoelétricas funcionando. Elas funcionam bem, suprem as deficiências, inclusive quando há períodos de seca no Brasil. Como é eu continuo fazendo isso sem agredir tanto o meio ambiente de forma que, no futuro, não iremos sentir efeitos? Na verdade, nós já estamos sentindo. Estamos cada vez mais conversando sobre o super El Niño que está se formando. Como que iremos desenvolver essa nossa nova matriz, com soluções tecnológicas, respeitando o trabalho e o ambiente. Isso é um desafio gigante. A transição não pode ser uma ruptura. Ela é uma transição: temos de imaginar um passo depois do outro. É passo a passo, meses, anos. Mas temos de chegar lá.
Essa abordagem gradual desarma a resistência à adoção de energias renováveis?
O trabalho deve ser pensado. Por exemplo, aqui na feira, estamos falando de transição energética: você tem o ônibus a diesel, a biometano, elétrico, híbrido... Isso é transição energética, e as pessoas estão perdendo seus empregos? Não, pelo contrário. Há mais gente trabalhando. Preciso de técnicos que entendam de biometano, de manutenção especializada e de compatibilização de baterias. Além disso, as realidades mudam: Porto Alegre é muito mais plana do que São Paulo, exigindo soluções locais. Essa transição precisa ser justa, inclusiva e socialmente sustentável em toda a cadeia.

Como o Brasil se posiciona nesse cenário global?
O hidrogênio verde é produzido a partir de energia elétrica, que veio de uma matriz que tem pegada de carbono zero. Ou é renovável, ou é solar, ou é a óleo. Se não, não é hidrogênio verde. Aí colocou-se uma algema na produção: "para você produzir hidrogênio é um desafio, para você transportar hidrogênio é um desafio, para você armazenar hidrogênio é um desafio". Além disso tudo, "só vale se for eólico ou solar". Não é assim. Não vai dar desse jeito. Então, veio um esforço grande no Brasil. O conceito de "verde" é o jeito único de se produzir hidrogênio de forma a contribuir para mitigar as mudanças climáticas. O disruptivo é zero, mas, no mundo real, você baixa emissão de carbono porque há várias possibilidades de se produzir o hidrogênio em que você não vai causar uma pegada de carbono que seja tão crítica para o mundo. O Brasil é um dos países que tem a matriz de produção de energia elétrica mais sustentáveis do mundo. No Brasil, a gente tem o potencial de usar a biomassa, o resíduo, para produzir hidrogênio.
Temos uma diversidade energética única no mundo para produzir hidrogênio de baixa emissão.
Dá para produzir hidrogênio a partir de resíduos?
Dá. É possível produzi-lo a partir de energia fotovoltaica, eólica ou de resíduos. A partir da água e de fontes de baixa emissão, o produto cumpre o mesmo papel. Quando você tira essa algema do conceito estrito de "verde", você coloca o Brasil de vez nessa rota, integrando várias fontes diferentes com uma pegada baixa de carbono.
Como você imagina que o hidrogênio será usado em larga escala?
No transporte pesado, como caminhões, o potencial é imenso. Podemos abastecer um caminhão no Sul com hidrogênio gerado a partir de resíduos do agronegócio; subir pela BR-116 e abastecer em São Paulo com hidrogênio de bagaço de cana e vinhaça; e seguir rumo ao Nordeste utilizando fontes eólicas e fotovoltaicas. Essa diversidade territorial e tecnológica é única no mundo. É hidrogênio de múltiplas fontes com baixa pegada de carbono: isso é Brasil, isso é engenharia brasileira, e esse é o espaço que devemos ocupar.






