
O modernismo brasileiro transformou a antropofagia em metáfora: devorar o outro para absorvê-lo e produzir algo novo.
Quase um século depois do Manifesto Antropófago de Oswald de Andrade, Brasília criou sua própria versão. Na capital federal, um Poder já não se limita a fiscalizar o outro. Come.
A antropofagia começa dentro das próprias instituições. No Supremo Tribunal Federal (STF), ministros travam uma batalha pública, com Alexandre de Moraes pedindo a investigação de André Mendonça e Mendonça reagindo agora com o afastamento do diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, e do diretor de Inteligência da corporação.
O que deveria ser um sistema de freios e contrapesos começa a assumir a forma de uma disputa em que cada movimento provoca outro ainda mais grave. A institucionalidade vai se liquefazendo e levando, de roldão, para o lamaçal, a República.
O presidente candidato Lula tentou permanecer alheio à guerra no Supremo, embora já sofresse seus efeitos na campanha eleitoral pela associação entre seu nome e Moraes. A decisão de Mendonça arrastou o Executivo diretamente para o conflito ao atingir Andrei, escolhido pelo presidente e subordinado ao Ministério da Justiça. A AGU prepara recurso contra o afastamento, enquanto a crise que começou dentro do Judiciário, cruza, a passos rápidos, a Praça dos Três Poderes.
A antropofagia institucional avança, um órgão sobre o outro. O passo seguinte pode ser uma névoa, na qual já não se saiba onde termina a defesa legítima de uma prerrogativa e começa uma guerra de poder.
Também preocupa a resposta sugerida por assessores palacianos. Marco Aurélio de Carvalho, coordenador jurídico da campanha do presidente, defendeu a convocação do Conselho da República para enfrentar o que classificou como uma "crise institucional sem precedentes". O colegiado existe para aconselhar o presidente sobre temas de enorme gravidade, como intervenção federal, estado de defesa e de sítio. A simples associação, em meio a uma campanha eleitoral e de uma batalha aberta entre integrantes do Supremo, eleva ainda mais a temperatura. O reverso precisa ser acionado.
Crises institucionais graves devem ser tratadas como uma emergência de pronto-socorro: primeiro é preciso impedir que a infecção se espalhe pelo organismo. Nesses casos, em geral, para preservar o corpo, é necessário afastar a parte comprometida até que se saiba exatamente o que aconteceu.
O Executivo acaba de perder, ainda que preventivamente, o seu diretor-geral da PF. Cabe ao Supremo fazer a sua parte, criando uma saída institucional capaz de interrompê-la.
Se Brasília continuar praticando sua antropofagia pública, chegará um momento em que não haverá vencedor. Todos cairão. Com os Poderes devorado uns aos outros, e o que restará sobre a mesa do banquete de vaidades será a própria República.




