
O jornalista Vitor Netto colabora com o colunista Rodrigo Lopes, titular deste espaço.
O imunologista Anthony Fauci, que estampou as capas dos jornais americanos durante a pandemia de coronavírus por ser o principal técnico dos governos Donald Trump e Joe Biden, voltou aos holofotes ao prestar depoimento em uma audiência no Congresso dos Estados Unidos.
Fauci não respondeu aos questionamentos de parlamentares republicanos sobre a possível origem do coronavírus — tema sobre o qual ainda não há comprovação definitiva.
O médico foi responsável por quase quatro décadas pelo Instituto Nacional de Alergias e Doenças Infecciosas (NIAID, na sigla em inglês) e ficou conhecido durante a pandemia por aconselhar os dois mandatos, tanto republicado quanto democrata. Ele também aparecia frequentemente na TV falando sobre medidas sanitárias, com discurso a favor de maior endurecimento das ações de isolamento social e pró-vacina.
Por que ele voltou aos holofotes?
Ainda durante a pandemia e, mais recentemente, diante da ação de parlamentares republicanos, Fauci é criticado por, supostamente, esconder informações sobre a origem do coronavírus. Durante a audiência, ele foi questionado sobre o financiamento de pesquisas com coronavírus na China, a hipótese de vazamento do vírus de um laboratório em Wuhan e as decisões adotadas pelo governo americano durante a crise sanitária.
Durante vários anos, Fauci manteve um diário, e suas anotações tornaram-se públicas recentemente, divulgadas pelo senador Rand Paul, revelando suas percepções sobre o coronavírus. Nos próprios materiais há críticas a Trump e relatos sobre as divergências de posicionamento.
Os documentos mostram que Fauci começou a debater a hipótese de um acidente de laboratório em 31 de janeiro de 2020, durante uma teleconferência com pesquisadores. Os especialistas estavam divididos entre a tese de transmissão zoonótica (contato direto) e a de vazamento em um laboratório em Wuhan, na China, sem que houvesse consenso na época.
Para os republicanos, os apontamentos privados contrastam com o posicionamento público adotado pelo médico na pandemia, quando ele enfatizava a probabilidade de o vírus ter uma origem natural.
Pouco mais de um ano depois, diante do aumento de casos e das acusações de que ele teria mudado de posição quanto à teoria da origem do vírus, o médico desabafou afirmando que nada poderia ser cravado de maneira categórica.
"Sempre afirmei que a hipótese altamente provável era a de que o vírus tivesse se originado naturalmente em um reservatório animal e passado para um ser humano. No entanto, nos últimos dias, diante do volume de especulações sobre a possibilidade de um vazamento de laboratório, passei a dizer que ninguém tem 100% de certeza sobre a origem do vírus, inclusive eu", afirmou em trecho do diário o qual a rede CBS News teve acesso.
Entretanto, os trechos que os parlamentares republicanos mais citaram durante a audiência no Senado foram os que Fauci escreveu no início da pandemia. O NIAID, instituto que Fauci liderou, financiou estudos no Instituto de Virologia de Wuhan, um laboratório na cidade chinesa onde o vírus da pandemia começou a se espalhar. Mas, até o momento, não há evidências de que esses estudos tenham relação com a pandemia.
As anotações apontam que, em janeiro de 2020, ele escreveu em seu diário: “Sabemos que o mercado (de animais de Wuhan) não foi a fonte, mas o amplificador da pandemia", teria anotado Fauci, de acordo com a CBS News. “Dito isso, em algum lugar o vírus passou de animais para humanos.”
Em outro trecho do diário, as anotações apontam que, durante uma reunião com representantes do Conselho de Segurança Nacional, em 7 de julho de 2021, Fauci criticou o posicionamento do FBI, que defendia a hipótese de vazamento em laboratório, e demonstrou maior alinhamento com avaliações da Agência de Segurança Nacional, favoráveis à hipótese de transmissão natural.
Relação com Trump
Por inúmeras vezes, Fauci foi alvo de críticas de Trump por divergências de posicionamentos sanitários. Além da discussão em torno da origem do vírus, as divergências giravam sobre o uso de máscaras e medidas de contenção.
“Fauci discordou veementemente, sempre tentando proteger a China. Eu ‘herdei’ Fauci, que estava lá desde a década de 1980, mas, a cada dia que passava, confiava menos nele”, escreveu Trump nas redes sociais recentemente.
Antes de deixar a Casa Branca, Biden concedeu uma anistia preventiva a Fauci contra possíveis acusações federais relacionadas às declarações feitas durante a pandemia, o que chamou a atenção dos senadores republicanos.
Próximos passos
Após o depoimento de Fauci perante a Comissão de Segurança Interna e Assuntos Governamentais do Senado dos EUA, o presidente do grupo, senador Rand Paul, anunciou que convocará a votação de uma resolução que declara Fauci em desacato ao Congresso.
Caso o comitê aprove a citação por desacato, a medida seguirá para deliberação do plenário do Senado, onde exige maioria simples para aprovação. Se aprovada, a resolução será formalmente encaminhada ao Departamento de Justiça, cabendo aos promotores federais decidir se apresentam acusações criminais por desacato — crime que pode acarretar multa e até um ano de prisão.



