
Desde o início, esta coluna alertou que a proposta de paz para Gaza, os 15 pontos estabelecidos pelo governo Donald Trump, coloca o Oriente Médio em uma armadilha de reciprocidade. O Hamas aceita se desarmar, desde que Israel se retire do território palestino, enquanto Israel só aceita se retirar de Gaza, se o Hamas se desarmar-se.
Percebem o círculo vicioso? É um jogo de vetos cruzados: as negociações estão presas em uma lógica de condicionantes recíprocas. Cada parte transformou sua principal exigência na pré-condição para atender à exigência da outra.
Sendo assim, seria fácil para o Hamas dar o primeiro passo - dizendo aceitar o acordo, como o fizera semanas atrás -, porque era certo que o governo Benjamin Netanyahu não o faria. Israel realiza eleições em 27 de outubro, um dia depois do segundo turno brasileiro. Será a primeira desde os atentados terroristas de 7 de outubro de 2023, logo a mais dura prova política para o mais longevo primeiro-ministro. Netanyahu não quer, não pode perder - até porque é réu por corrupção. Perder o poder pode significar a prisão.
Internamente, há as mais diversas opiniões: de quem acha que o governo deve ser reeleito, porque supostamente neutralizou o Hamas; quem o culpa pela demora na entrega dos reféns, a morte de muitos e as falhas na condução da guerra; e quem acredita que o horror de 2023 só ocorreu por erros de inteligência. Pode ser tudo junto e misturado, mas a verdade costuma se esconder no meio termo, principalmente em temas de Oriente Médio, nos quais há mais de mil tons de cinza.
Como já comentei neste espaço, Netanyahu se alimenta do conflito - e mais perderia do que ganharia, se iniciasse a retirada militar de Gaza sem garantias de que o Hamas irá se desarmar. Seria, em sua visão e de sua base, capitular. Perder a guerra e a eleição.
Mas o plano de Trump não é falho só porque deixou brechas para a armadilha da reciprocidade. Tem um vício de origem: não funciona porque os Estados Unidos não são um mediador neutro. E confiança, a começar por quem está intermediando uma crise, é fundamental.
O fato é que Netanyahu tirou o doce da boca de Trump, que pretendia anunciar mais uma guerra encerrada por seu mandato. O presidente tem aumentado esse número ao longo do tempo. Atualmente, ele afirma ter encerrado 10 conflitos, embora essa contagem seja amplamente contestada, porque mistura guerras propriamente ditas, cessares-fogo temporários, crises diplomáticas e disputas que permanecem em andamento.
O impasse só mostrou que o distanciamento entre Trump e Netanyahu está ainda maior. E a tática do Hamas é ampliá-lo: jogando a responsabilidade sobre o governo israelense, força a Casa Branca a pressioná-lo.
Volta-se à estaca zero. Sem retirada, sem desarmamento, sem paz.




