
Excetuando-se eventuais negacionismos, boa parte do mundo já compreendeu que mudanças climáticas não são apenas um problema ambiental de futuro, mas principalmente uma questão econômica, com potencial de interferir em decisões de investimento, afetar cadeias produtivas e comprometer o desenvolvimento.
A decisão de dois eventos de relevância nacional, a Geronto Fair e o Festival Mundial de Publicidade, de desistir de realizar suas edições presenciais deste ano em Gramado, sob a justificativa dos riscos climáticos previstos em decorrência do El Niño vitaminado, é sintoma dessa nova realidade.
Sem entrar no mérito se a avaliação de risco está correta ou não, há um sinal amarelo acesso aqui para nós, gaúchos: certa percepção de vulnerabilidade climática do Rio Grande do Sul e o fato de que esse cálculo, real ou imaginário, já está entrando na planilha de quem decide onde realizar eventos e investir no Estado.
Conhecemos esse efeito: basta lembrar o impacto do fechamento do aeroporto Salgado Filho, depois da enchente de maio de 2024. Durante meses, foram atingidos hotéis, restaurantes, empresas, comércio e toda a cadeia de atividades dependentes da chegada de pessoas ao Estado.
A preocupação provocada pelas decisões envolvendo Gramado precisa vir acompanhada de uma ponderação. O RS de 2026 não é o mesmo de maio de 2024. Vários municípios fizeram o dever de casa depois das enchentes e dos deslizamentos de terra de 2023 e 2024. Monitoramento meteorológico, sistemas de alerta, planos de contingência e infraestrutura. Ainda falta muito, algumas obras estruturantes levarão anos, mas houve aprendizados.
Em nota, a prefeitura de Gramado destacou que dispõe plano de contingência para prevenção, monitoramento e atuação diante de condições climáticas adversas. O Executivo afirma ainda que nenhuma ocorrência em 2026 alterou o funcionamento regular das atrações turísticas e dos equipamentos públicos da cidade.
São informações fundamentais porque resiliência significa aumentar a capacidade de antecipar riscos, preparar respostas e reduzir seus impactos quando eles acontecerem.
Mas não basta "apenas" fazer. É preciso comunicar o que foi feito.
O RS precisa demonstrar ao restante do país que aprendeu com suas tragédias e está mais preparado para enfrentá-las. Não se trata de vender uma falsa sensação de segurança. Mas de mostrar objetivamente quais estruturas existem para enfrentá-las.
O Festival de Cinema de Gramado, que começa nesta sexta-feira (14), pode funcionar como uma caixa de ressonância. Nos próximos dias, artistas, jornalistas, produtores, patrocinadores e turistas de todo o Brasil estarão na Serra. É uma oportunidade para exibir não apenas o tapete vermelho, os filmes, o glamour e hospitalidade, que tanto nos orgulha, mas evidenciar uma região que continua recebendo visitantes, realizando grandes eventos e aperfeiçoando sua capacidade de resposta a eventos extremos. Isso, sim, gera confiança.

