
Este é um dos momentos mais desafiadores da diplomacia brasileira desde a redemocratização. O país enfrenta, simultaneamente, a pressão do governo Donald Trump na disputa tarifária, a revogação do visto da embaixadora do Brasil nos Estados Unidos, Maria Luiza Ribeiro Viotti, e o rebaixamento das relações diplomáticas com a Argentina em razão dos sucessivos ataques de Javier Milei ao presidente Lula e a outras autoridades.
O Brasil já atravessou crises importantes com Washington — como a provocada pelas revelações de espionagem feitas por Edward Snowden, em 2013, durante o governo Dilma Rousseff. Também enfrentou momentos de tensão com a Argentina e disputas comerciais. O que torna a conjuntura atual singular é a coincidência temporal desses episódios, agravada por uma campanha eleitoral que internacionalizou a política brasileira.
O problema é que o Itamaraty foi erigido de forma a administrar crises pontuais, não para lidar com incêndios em várias frentes simultâneas. Desde o Barão do Rio Branco, a diplomacia brasileira construiu sua reputação sobre dois pilares: diversificação de parceiros e solução negociada de controvérsias. Hoje, porém, esses princípios são testados simultaneamente em diferentes direções.
A política doméstica passou a contaminar a política externa. Não por acaso, as declarações de Milei ocorreram justamente na convenção que oficializou Flávio Bolsonaro como pré-candidato à Presidência e foram interpretadas pelo Itamaraty como uma extrapolação dos limites aceitáveis da relação entre Estados.
No caso dos Estados Unidos, a crise vai muito além do protocolo diplomático. Os americanos continuam sendo um dos principais parceiros comerciais do Brasil e o aliado histórico mais antigo do país. Foram, afinal, a primeira nação a reconhecer a independência brasileira, em 1824, apenas oito meses após a proclamação. Esse gesto inaugurou uma relação bilateral que atravessou impérios, repúblicas, guerras mundiais e a Guerra Fria.
A história com a Argentina foi diferente. Ela começou sob o signo da rivalidade, em meio à Guerra da Cisplatina e às disputas pela liderança da Bacia do Prata. Ao longo do século 19, brasileiros e argentinos foram os principais concorrentes geopolíticos da América do Sul. A desconfiança persistiu durante boa parte do século 20. Nas décadas de 1970 e início dos anos 1980, embora nunca tenha havido uma corrida armamentista declarada, os dois países observavam com cautela seus programas nucleares, temendo que o vizinho pudesse desenvolver capacidade para fabricar uma bomba atômica.
A transformação dessa rivalidade em parceria estratégica só começou com a redemocratização, culminando na criação do Mercosul e da Agência Brasileiro-Argentina de Contabilidade e Controle de Materiais Nucleares (ABACC), um dos mais bem-sucedidos mecanismos de confiança mútua do mundo.
O Brasil, portanto, enfrenta atritos simultâneos com seu maior parceiro no hemisfério, os Estados Unidos, com seu principal vizinho, a Argentina, e em meio a uma campanha presidencial fortemente internacionalizada. Política externa raramente decide eleições, mas frequentemente é utilizada para mobilizar militâncias e alimentar narrativas domésticas. Caberá ao Itamaraty impedir que divergências entre governos contaminem interesses permanentes do Estado brasileiro.
Como já defendido por essa coluna: presidentes passam, relações entre países precisam permanecer.




