
Se a Defesa Civil foi uma área em que o Rio Grande do Sul avançou desde a tragédia das enchentes de 2023 e 2024, há outro setor, bastante específico, que merece atenção dos poderes público e privado: a medicina de desastres. Quem entra em ação quando o sistema de saúde colapsa diante de uma catástrofe provocada pelo ser humano ou pela natureza?
Em andanças pelo mundo, de tragédia em tragédia, como o furacão Katrina ou o terremoto no Haiti, como repórter de ZH, testemunhei inúmeras vezes que a primeira resposta a um desastre costuma ser dada pelo sistema de saúde local. Mas e quando a própria rede hospitalar sucumbe? Na enchente, basta lembrar o caos em Canoas e outros municípios.
É diferente, para um médico ou médica, atuar com recursos, equipamentos e insumos em ambientes a que os profissionais estão acostumados. No caso de uma tragédia de grandes proporções, equipes de emergência são testadas em ambientes de estresse contínuo, de adoecimento mental, de traumas, por vezes sem medicamentos, o que exige uma capacitação prévia e posterior, continuada.
Em meio a uma crise, cabe a esses profissionais classificar rapidamente os feridos para priorizar quem tem chance de sobrevivência com recursos limitados, montar hospitais de campanha, gerenciar o fluxo de suprimentos e equipes e integrar médicos, bombeiros, Defesa Civil e órgãos de saúde pública.
Organizações como Médicos Sem Fronteiras têm essa expertise. São, normalmente, as primeiras a chegar e as últimas a sair de uma zona de desastre. Mas, para além de organizações não governamentais, poder público, hospitais e universidades devem investir nessa especialização do atendimento de emergência, principalmente diante de riscos de eventos extremos, cada vez mais frequentes, e ameaças biológicas, como a crise da covid-19.
O Brasil não começa do zero. Desde 2011, a Força Nacional do SUS existe, inclusive com uma base no Rio Grande do Sul. Segundo afirmou ao jornal Folha de S.Paulo o secretário executivo do Ministério da Saúde, Adriano Massuda, novos efetivos serão criados a partir de 2027 no Nordeste, no Norte e no Centro-Oeste. Essa força foi criada quando o país se preparava para receber a Copa do Mundo e os Jogos Olímpicos, e temia-se um atentado terrorista.
Mas o setor privado também precisa investir. No eixo Rio-São Paulo, a rede Einstein é referência, com um grupo de especialistas que atuou no Haiti, no incêndio da boate Kiss, em Santa Maria, e em Brumadinho.
Mas, no RS, quantos cursos de especialização em nível acadêmico existem nessa área? Quantos hospitais dispõem de grupos de medicina de desastres? E há quanto tempo Porto Alegre não realiza uma grande simulação de resposta a uma emergência? São questões que merecem reflexão — e reação — em tempos bastante estranhos.



