
O jornalista Vitor Netto colabora com o colunista Rodrigo Lopes, titular deste espaço.
A crise envolvendo o ex-diretor de saúde pública Anthony Fauci teve mais um capítulo na quinta-feira (6). Uma comissão do Senado dos Estados Unidos votou para declarar o médico em desacato ao Congresso, após ele se recusar a responder a perguntas durante uma audiência que analisava sua atuação no combate à pandemia de covid-19.
A votação abriu caminho para que o comitê encaminhasse o caso ao Departamento de Justiça americano para um possível processo por descumprimento de intimação do Congresso.
O Departamento de Justiça confirmou, ainda na quinta-feira (6), que havia recebido o documento. Entretanto, ainda não está claro se o órgão dará prosseguimento ao caso.
O que aconteceu?
Durante seu depoimento na semana passada no Comitê de Segurança Interna e Assuntos Governamentais do Senado, Fauci invocou a 5ª Emenda da Constituição — que garante o direito contra a autoincriminação — mais de 100 vezes, permitindo que ele ficasse em silêncio.
Fauci é acusado por senadores republicanos de ter escondido informações sobre as origens da pandemia de Covid-19. Os políticos afirmam que o ex-diretor tinha informações de que o vírus foi criado e vazou de um laboratório de pesquisa na cidade chinesa de Wuhan — fato que até hoje não foi comprovado — e que o médico defendia a tese de que o vírus se originou de forma humana.
O assunto escalou nas últimas semanas após um diário de Fauci, com mais de mil páginas, ter vindo a público. As anotações indicavam conversas que cogitavam o vazamento do laboratório de Wuhan e suas percepções sobre a doença.
Os documentos mostram que Fauci começou a debater a hipótese de um acidente de laboratório em 31 de janeiro de 2020, durante uma teleconferência com pesquisadores. Os especialistas estavam divididos entre a tese de transmissão zoonótica (contato direto) e a de vazamento em um laboratório em Wuhan, na China, sem que houvesse consenso na época.
Em outro trecho do diário, as anotações apontam que, durante uma reunião com representantes do Conselho de Segurança Nacional em 7 de julho de 2021, Fauci criticou o posicionamento do FBI — que defendia a hipótese de vazamento em laboratório — e demonstrou maior alinhamento com as avaliações da Agência de Segurança Nacional, favoráveis à hipótese de transmissão natural.
O médico esteve à frente do Instituto Nacional de Alergias e Doenças Infecciosas (NIAID, na sigla em inglês) por quase quatro décadas e ficou mundialmente conhecido durante a pandemia por aconselhar governos tanto republicanos quanto democratas. Ele também aparecia frequentemente na TV para falar sobre medidas sanitárias, mantendo um discurso a favor do endurecimento do isolamento social e do incentivo à vacinação.



