
Delfina Vildosola, líder do Penn Institute for Urban Research, da Universidade da Pensilvânia, nos Estados Unidos, esteve no Estado em julho para assinar uma parceria com a Coalizão RS, durante a Semana de Ação Climática.
A iniciativa gaúcha reúne poderes públicos e privados, academia e organizações da sociedade civil com o objetivo de fortalecer a resiliência do Estado frente às mudanças climáticas. O acordo tem o objetivo de combinar excelência acadêmica com aplicação prática de conhecimento na criação de soluções de governança e levantamento de recursos para ações no Estado.
Ela conversou com a coluna.
Em que consiste esse acordo entre a Universidade da Pensilvânia e a Coalizão RS?
Eu trabalho no Instituto de Pesquisa Urbana, dentro da Universidade da Pensilvânia. No instituto, trabalho principalmente dando suporte a esforços para promover e desenvolver ferramentas para aumentar o financiamento para ação climática urbana, porque essa é uma área, claramente, em que é muito difícil de se financiar porque o sistema financeiro internacional não está desenhado para isso. Dentro do instituto, funciona o secretariado de uma rede, eu dou suporte a essa rede, desenvolvendo essas atividades. A partir desse instituto, principalmente vinculado a essa rede, estamos desenvolvendo esse acordo com a coalizão RS. O que está ocorrendo aqui, em Porto Alegre, é interessante por ser uma experiência inovadora que está trazendo soluções de financiamento para as diferentes entidades e localidades.
Por que o sistema financeiro internacional não está desenhado para esse tipo de situação?
Quando olhamos as instituições financeiras internacionais, como os bancos multilaterais, Banco Mundial, Banco Ibero-Americano, Banco Europeu, Bancos Asiáticos, elas estão desenhados para dar financiamento a Estados nacionais. Esses são os membros dos bancos, os sócios, e esse é o jeito que está desenhado o ecossistema. Mas o que acontece? Nós vemos que as mudanças climáticas atingem diretamente as comunidades. Então, quando olhamos os sistemas de governança, o ator público que tem a responsabilidade pela resposta é o governo local, são os municípios. Por isso, é aí que precisamos desenvolver, no território, as ações de adaptação climática, de resposta, quando há uma emergência climática, como ficou bem claro a partir da experiência de Porto Alegre. O exemplo clássico é transição para veículos elétricos. Tem de haver um investimento local, no sistema de transporte da cidade. Mas isso requer uma transformação da sociedade, da economia, do jeito que funciona, que é profundamente transformador. É um investimento enorme, e o governo local não tem o volume de recursos necessários para desenvolver todas essas ações. Então, precisamos procurar investimento. Mas, como falei, o sistema internacional está desenhado para financiar Estados nacionais. Aí temos um conflito entre o desenho dos marcos regulatórios, dos marcos legais, das competências dos governos locais, que muitas vezes não podem, às vezes até pelo desenho constitucional, entrar em convênios, e tomar empréstimos, receber o financiamento de instituições internacionais multilaterais. Nesse caso, temos de procurar e desenvolver mecanismos, ferramentas que sejam adequadas para que a escala do investimento, a estrutura dos instrumentos legais e financeiros, sejam adequadas à estrutura. Por isso essa articulação multissetorial, que envolve o setor privado, a Academia e o poder público, é uma forma de interessante de quebrar esse modelo dos financiamentos via organismos internacionais tradicionais.
Como você avalia o caso de Porto Alegre?
É importante que sejam viabilizados os instrumentos para aproveitar os recursos que estão disponíveis, mas também, e aí é um aspecto interessante da experiência aqui, de Porto Alegre: sabemos que as fontes de financiamento têm de ser ampliadas. Temos de olhar para além das instituições tradicionais. O setor público, sim, tem de investir, mas isso sozinho não é suficiente. Temos de ampliar a perspectiva e achar novos setores, novos jeitos e oportunidades para financiarmos isso. E o setor privado é imenso, é a base dos sistemas econômicos, então também aí surge a questão sobre como engajar esses setores para que façam investimentos, que estejam alinhados à realidade climática e das sociedades. É necessário derrubar barreiras, mas também desenvolver ecossistemas e condições que tornem isso possível.
Como a Coalizão RS pode contribuir?
Aí o interesse na experiência da Coalizão nas ações no Rio Grande do Sul, porque vemos que ela teve muito sucesso em estabelecer um ecossistema de confiança, em estabelecer parcerias, colaborações com todos os setores, com uma transversalidade exemplar, articulando os setores filantrópico, acadêmico, público, privado, para que cada um possa fornecer diferentes recursos intelectuais, econômicos, etc. E também encontrar esse jeito de desenvolver mecanismos para focalizar nos pontos em que os projetos, as iniciativas dos setores públicos, por exemplo, acham que que ficam travados, por múltiplas questões. Essa utilização muito estratégica do recurso filantrópico para focalizar onde há um potencial para viabilizar investimentos maiores é super interessante e algo que é muito difícil de se conseguir. Não há muitas experiências exitosas no mundo. Então, temos interesse em entender melhor a experiência, as parcerias, o modelo e como funciona a Coalizão e como isso pode ser replicado, ampliado e levado também para outras regiões. Todo mundo precisa de soluções inovadoras com esse tipo de lógica.
Como tornar esse tipo de investimento também interessante para o setor privado?
Não pode ser somente um setor. Precisamos de colaborações, onde cada um pode contribuir para que todas as partes possam atingir resultados muito maiores do que seria possível sem esse tipo de parcerias, sem esse tipo de ação estratégica. Claro, o setor público tem uma responsabilidade de desenvolver ações. Porque muitas vezes tem a ver com a transição energética E ali tem oportunidades econômicas enormes. É verdade que isso requer investimento. Eu estou aqui participando da Semana de Ação Climática. Assisti a painéis nos quais os prefeitos têm falado, por exemplo, que o custo de um veículo elétrico de transporte público pode chegar a R$ 4 milhões, enquanto um veículo tradicional com combustão custa R$ 800 mil. Então, claro, requer um investimento inicial maior, mas tem depois as oportunidades da economia que esse veículo vai estar no longo prazo: o custo da energia limpa, renovável, pode ser muito menor do que o custo do combustível fóssil.
É uma aposta de futuro?
É uma aposta do futuro, mas é um futuro que tampouco pode esperar, porque nós vemos que a mudança climática já está aqui. É uma realidade que comunidades estão experimentando. É uma realidade que chegou a ficar. A transição é uma necessidade, mas ela tem as oportunidades de desenvolver sistemas econômicos mais eficientes, sem desperdício, de desenvolver cadeias produtivas. É desenvolver uma lógica que reconhece a atividade com uma circularidade. As oportunidades são inúmeras em questões como o uso da água, da energia, dos resíduos. Então, tem muitos painéis falando como podemos achar novos jeitos de pensar a atividade e transformar problemas e situações desafiadoras em um impulso para um desenvolvimento que, no fundo, melhora a qualidade da vida das pessoas. Porque, quando falamos dos impactos da poluição e da mudança climática, podemos pensar que o impacto na saúde das pessoas é imenso. Temas como a transição dos sistemas de transporte impacta diretamente na qualidade do ar e nas doenças vinculadas à poluição. Se fazemos esse investimento na transição energética, estamos também melhorando a saúde das pessoas, estamos melhorando o ambiente, estamos melhorando a qualidade de vida. E isso acontece com diferentes dimensões da experiência urbana e da experiência humana. Isso impacta no custo no sistema público de saúde, da população, na produtividade perdida, por causa dos impactos nas pessoas e também dos danos materiais que as cidades, que os municípios experimentam por causa da mudança climática e dos eventos extremos que nós vivemos.
No Rio Grande do Sul, muitos municípios desconhecem como acessar as ferramentas para conseguir financiamento. Isso se repete em outros lugares?
Sim. O ponto que o senhor está identificando é bem conhecido pelas redes de cidades, pela comunidade internacional que trabalha na questão de adaptação urbana à mudança climática: o problema da capacidade técnica administrativa dos governos locais intermediários e menores. Porque, claro, temos cidades de 20 milhões de pessoas e municípios com 20 mil habitantes. Um município menor tem recursos escassos, tem capacidades escassas e tem uma necessidade enorme. E isso é um problema bem conhecido. Esse é um ponto importante também para identificar o potencial das parcerias, da colaboração e da ação coletiva. Porque, trabalhando em conjunto, os parceiros podem prestar assistência técnica, ajudar a identificar as propostas, podem ajudar a identificar as oportunidades de financiamento. Eis uma razão super importante para os governos locais se vincularem, trabalharem em conjunto, em redes, em parcerias, com suporte de instituições que podem desenvolver essa função intermediária para aproximar as pontas e identificar quais as soluções mais adequadas ao contexto local, quais as instituições que estão melhor posicionadas para o financiamento de acordo com a escala e as características de cada município.



