
São até compreensíveis as falas contraditórias de Donald Trump, que antecederam a segunda barragem de bombardeios sobre o Irã, na quarta-feira (8), diante do dilema que se agigantou no Oriente Médio a partir de duas guerras iniciadas pelo republicano. Na prática, Trump disse: vou atacar, mas não quero; e se atacar, não irá durar muito tempo. Atacou. Durou pouco.
Mas o problema é: o que virá agora?
O presidente americano está em uma sinuca de bico, porque todas as "alternativas sobre a mesa", como gostam de dizer os inquilinos da Casa Branca, são um mau negócio.
Status atual: mesmo depois de dois enfrentamentos com a maior potência militar do planeta, o regime iraniano segue de pé, há dúvidas sobre se os bombardeios neutralizaram o projeto de enriquecimento de urânio, e os aiatolás aprenderam a usar o Estreito de Ormuz como ferramenta de barganha. Não há garantias de que uma eventual terceira guerra irá ter sucesso.
Opção 1: deflagrar uma invasão em larga escala em território iraniano, com vistas a uma mudança de regime, implicaria perdas humanas (civis e militares) incalculáveis. Ainda que as principais cabeças do governo tenham sido decapitadas e boa pare do sistema antiaéreo tenha sido neutralizado, os defensores levariam vantagem em relação aos invasores em um terreno montanhoso e terrivelmente hostil. A imagem de soldados americanos voltando para casa dentro de caixões é um trauma do Vietnã e do Iraque que nunca será superado. E Trump não vai pagar para ver.
Opção 2: deflagrar uma invasão limitada, anfíbia, à Ilha de Kharg, principal polo petrolífero do Irã também implica riscos, dada a geografia recortada da costa iraniana, que facilita a defesa do território. Bombardeios às usinas ajudaria a sufocar a economia iraniana, já vilipendiada pelas sanções, mas geraria uma crise energética internacional, o que, ato contínuo, elevaria a inflação nos EUA.
Qualquer uma dessas opções abririam margem para a resposta iraniana, com uso de drones contra bases americanas em países aliados no Golfo — o que minaria ainda mais essas parcerias, tornaria a presença americana intragável e extrapolaria os custos do guarda-chuva de proteção americano.
Baixas americanas ou o preço do barril de petróleo nas alturas - ou os dois juntos - sepultaria os planos de Trump nas eleições de meio de mandato, em novembro. Os republicanos perderiam a frágil maioria na Câmara e no Senado, o que pode facilitar o trâmite de processos de impeachment nos dois anos que o presidente tem ainda de mandato.
Deixar tudo como está também é uma opção pouco efetiva: além de o Irã continuar sendo uma ameaça nuclear, representar a cabeça de grupos terroristas espalhados pela região e manter-se como elemento de desestabilização no Oriente Médio, não agir seria um atestado de decadência do poder americano no século 21.





