
O jornalista Vitor Netto colabora com o colunista Rodrigo Lopes, titular deste espaço.
Um dos principais nomes da pauta da mudança climática no Brasil e no mundo, a CEO da COP30, Ana Toni esteve na Capital nesta segunda-feira (20) para participar da Semana da Ação Climática de Porto Alegre.
Em entrevista à coluna, ela falou sobre o legado da conferência de Belém, sobre o contato da sociedade com a pauta ambiental e sobre a transição energética.
Qual o principal legado da COP30 para o Brasil?
O legado é colocar o Brasil para o mundo como um provedor de soluções climáticas. Mudou a percepção do mundo com o Brasil como um problema climático, que, antes, era a maneira que o mundo olhava, para se tornar um provedor de soluções climáticas. Nos diversos setores, Estados, trouxemos soluções climáticas. Esse é um grande legado para o Brasil. Para o mundo, eu diria que há alguns legados, mas acho que o mais importante é de ter mudado essa ficha de sair da ênfase e da priorização da negociação para colocar prioridade na implementação, para agilizar as ações climáticas que precisamos. Isso não é abandonar a negociação, mas é reforçar a necessidade de agilizarmos a implementação.
No ano passado, a COP30 ocorreu no Brasil, havia um engajamento da sociedade civil, dos órgãos e das empresas. Agora, para a COP31, há uma certa desmobilização, não?
Não vejo dessa maneira. Temos tido diversas reuniões com o setor privado, com os governos subnacionais (Estados e prefeituras) no Brasil e fora e vemos que o tema do clima, seja nas Semanas do Clima, como aqui em Porto Alegre, Rio de Janeiro, São Paulo... Tivemos diversas reuniões com o setor privado, vemos muita modificação em termos do engajamento, tanto aqui quanto lá fora. Acabei de voltar da Semana do Clima de Londres e foi três vezes maior do que há dois anos, então não vemos essa desmobilização. Obviamente, há uma pressão muito grande por causa de alguns atores internacionais, então talvez as pessoas possam estar falando de forma diferente, de uma maneira muito mais concreta, mais sobre assuntos de implementação e talvez menos discursos sobre "vamos fazer", "queremos isso" e muito mais do que já estão fazendo e de como isso é implementado.
Como o Brasil vai entregar a coordenação da COP30 para a COP31? Quais as principais bandeiras?
Volto para a implementação. Trabalhamos muito com o governo da Turquia e da Austrália, que são os dois que estão dividindo a COP31, para essa pegada da implementação e acelerar as ações climáticas. Ficamos muito felizes que isso tenha sido abraçado. Então, a agenda de ação da COP30, a estrutura que foi montada, os seis eixos, foram mantidos, acelerando a implementação. Esse é o maior legado que a COP30 teve e foi muito abraçado pela COP31 e também pelos atores que estão ao redor. Você vê, por exemplo, nas agendas das Semanas do Clima, seja de Porto Alegre, seja de Londres, todas usando a mesma estrutura dos seis eixos que a gente trouxe. Isso nos deixa muito felizes porque é essa aceleração, pelo que a gente chama de positive tipping points, que precisamos para acelerar a mudança na vida real das pessoas, trazendo isso para a vida real das pessoas. As pessoas querem poder fazer parte dessa transição, e é através das soluções climáticas que vamos poder fazer isso.
O Mapa do Caminho e o TFFF (Tropical Forest Forever Facility, ou Fundo Florestas Tropicais para Sempre) continuam também para a COP31?
Absolutamente. O Mapa do Caminho vamos entregar para a COP31, que prometemos na COP30, que é o Mapa do Caminho internacional, sugerindo ações concretas, o que pode e deve acontecer na área de produção de combustíveis fósseis, na área da demanda do combustível fóssil e na da economia, a dependência econômica dos combustíveis fósseis. Vamos trazer também um Mapa de Caminho sobre combate ao desmatamento e recuperação de terras degradadas, então, para nós, é muito importante. O TFFF é uma bandeira da COP30, já temos excelentes sinalizações e queremos chegar na COP31 trazendo volume ainda maior de recurso. O TFFF já está estabelecido, com uma grande novidade de preservação das florestas. Então, isso tudo faz parte da agenda de ação, desse arcabouço que foi absorvido pela COP31.
Algumas pessoas enxergam um certo distanciamento do que é debatido entre os negociadores nas COPs com a população em geral. Há esse distanciamento?
Você tem toda razão, e tem havido esse distanciamento. Hoje, escutei de uma das lideranças sobre isso. "Como assim, as pessoas vão para a COP, um bando de diplomatas se encontra lá, e não sabemos como isso está afetando o nosso dia a dia?". Esse era um dos objetivos da COP30, dessa aproximação com o dia a dia das pessoas. E acho que essa aproximação está acontecendo pelo bem e, infelizmente, pelo mal. Quando vemos uma cidade como Porto Alegre, que tanto sofreu com a mudança do clima, não precisamos mais traduzir o que é a mudança do clima para uma população que sofreu na pele com as suas próprias vidas, negócios, as consequências da mudança do clima. Isso começa, infelizmente, a ficar muito real no dia a dia das pessoas. A onda de calor que está acontecendo na Europa agora, os incêndios do Canadá, isso está ficando próximo. São sobre esses temas que as COPs lidam. Ao mesmo tempo, com as oportunidades e com as soluções. Quando você ou outras pessoas vão comprar um carro novo ou decidem se vai ser a etanol ou elétrico, ou quando tem menos poluição nas cidades, isso tem a ver com a mudança do clima. Então, tanto na solução quanto, infelizmente, já nas consequências da mudança do clima, essa tradução é muito importante. É importante que as COPs mostrem isso no dia a dia: quando falamos de preservação das florestas e de um instrumento econômico como o TFFF, mostrar que quem está preservando a floresta em pé vai poder contar com recursos para àquela população que já está preservando a floresta continuar fazendo isso. É uma obrigação de todos nós que participamos de tantas COPs fazer essa tradução. E por isso é importante o papel da mídia, de todo mundo que trabalha com isso, de mostrar o quão concreto já está na vida de cada pessoa, cada brasileiro, cada brasileira, no que consumimos, nas decisões de o que fazemos com o nosso consumo, com o nosso voto, como a mudança do clima já faz parte desse nosso dia a dia.
Estamos vivendo ondas de calor extremo na Europa e a iminência de um El Niño. O que falta para dar um "chacoalhão" nas pessoas para entender sobre as mudanças climáticas?
Outro dia eu ouvi uma coisa que acho que é verdade: a maioria das pessoas, incluindo nós, temos mais medo da mudança do que da mudança do clima. É muito difícil mudarmos os nossos hábitos. Hábitos que são reforçados pelo sistema econômico, político e institucionais. O que fazemos no dia a dia está muito influenciado por essas forças. Então, é muito difícil mudar. E, por isso, as Semanas do Clima, como a de Porto Alegre, são tão importantes, para começarmos a levantar esses temas, debatê-los e começarmos a pensar o que, cada um de nós, pode fazer para essa mudança, sendo nós os gestores públicos, os CEOs de uma empresa, ou os consumidores, professores. Cada um de nós é o grande mutirão da COP30, faz parte dessa solução. Se você não é parte da solução, você é parte do problema.
Recentemente, a senhora falou sobre a crise no Oriente Médio e que o Estreito de Ormuz mostrou a necessidade de pensar em energias renováveis, de diversificar as fontes. Como fazer essa transição?
Felizmente as energias renováveis, hoje em dia, já são mais baratas do que a energia fóssil. Isso é um grande estímulo ao consumidor, tem aí um custo de investimento, se você vai colocar um painel solar na sua casa ou que tipo de combustível, se é etanol, se é renovável ou não. Começamos a ter agora alternativas para poder fazer essas escolhas de maneira consciente e mais fácil, porque, como falei, ninguém gosta de mudança, então as mudanças que estão vindo para conseguirmos fazer com que elas tenham escala, precisam facilitar a vida de quem vai absorver esses novos alimentos que comemos.
Um exemplo é o caso da usina de Candiota, no sul do Estado, em que a Justiça Federal suspendeu a operação. Porém, várias cidades da região dependem desse setor econômico. Como combinar essa equaçãoa?
Fundamental. Primeiro, colocar as pessoas no centro desse debate. Aqueles trabalhadores e trabalhadoras, que dependem daquele emprego, têm de ser pensado como sobreviver. Vamos pensar em novas capacitações para essas pessoas, realocar para outros empregos. Isso tem que ser planejado e feito. Ao mesmo tempo, percebemos, principalmente no tema de carvão aqui no Brasil, que é uma energia muito subsidiada há muitos anos. Então, onde hoje já temos alternativas de recursos renováveis muito mais baratos. Aquele subsídio que está indo para as empresas poderia ir para os trabalhadores, não só para manter o trabalho, mas, se o trabalhador é a nossa prioridade, o subsídio poderia ir direto a eles, em vez de ir para as empresas que estão também ganhando com isso. Esse é o debate que temos de fazer com a sociedade, mostrar diversas alternativas, os fatos e deixar que ela ajude a fazermos essa escolha.
É ano de eleição. No que devemos ficar atentos nos planos de governos dos candidatos, seja ema nível nacional ou estadual, na pauta ambiental?
A hora de decidir o voto é também a hora de entender que a mudança do clima está aqui para ficar. Então, cobrar de todos os candidatos, absolutamente todos, quais são as suas propostas, os seus anseios em relação ao tema de mudança do clima. O que cada um faria em relação a essa problemática, tanto na parte de mitigação quanto na de adaptação. Todos, como cidadãos e cidadãs, e como eleitores, temos o dever de perguntar aos candidatos o que vão fazer para melhorar ou amenizar a situação de mudança do clima.






