
A um olhar desavisado, a decisão do Hamas de abrir mão do poder na Faixa de Gaza pode parecer histórica. Afinal, o grupo terrorista estaria abrindo mão do poder político depois de mais de duas décadas em que manteve a população palestina refém em seu próprio território.
Mas não sejamos ingênuos: na prática, a decisão muda pouco. O Hamas continuará controlando militarmente grande parte de Gaza que não está ocupada por Israel. A questão é tática: a jogada procura deslocar a pressão para Israel, que vem sendo cobrada por Donald Trump para implementar as etapas seguintes do cessar-fogo, incluindo a instalação do governo tecnocrático.
Por trás, há um esforço para mudar a narrativa: até agora, Israel sustentava que a maior dificuldade para o cessar-fogo era a recusa do Hamas em deixar o poder. Pois bem, agora, o Hamas vai dizer: "aceitamos sair do governo, quem impede o acordo é Israel".
O comunicado tem como objetivo ainda colocar Trump contra Benjamin Netanyahu. O presidente americano não esconde o desejo de apresentar o cessar-fogo como sua grande vitória no Oriente Medio. Então, tenta criar uma situação em que Netanyahu apareça como o responsável por bloquear o acordo.
É um movimento voltado mais para Washington do que para Tel Aviv, especialmente a três meses da eleição em Israel e na qual Netanyahu é candidato - de novo e de novo.
É um movimento inteligente do ponto de vista político, porque procura inverter o ônus da paralisação das negociações. Mas dificilmente alterará a posição israelense.
Há ainda uma perspectiva que não pode passar despercebida: trata-se de uma tentativa de o Hamas demonstrar que está disposto a abrir mão da administração civil, preservando, porém, sua estrutura militar. O grupo terrorista não anunciou sua dissolução como organização armada. Vociferou apenas o fim de seu governo civil. Pode deixar de administrar escolas, hospitais e ministérios. Mas continuar existindo como força militar. É algo semelhante ao que o Hezbollah faz no Líbano: é um partido político com um braço armado mais poderoso, inclusive, do que as forças armadas de muitos países.
Esta é uma estratégia para manter influência. O Hamas sabe que dificilmente voltará a governar Gaza da mesma maneira que antes de outubro de 2023. Então, começa a negociar qual será seu papel. Tudo indica que continuará sendo o ator mais poderoso sobre os escombros do diminuto território, em um processo lento, gradual e dramático, de libanização de Gaza.






