
O acordo entre Estados Unidos e Irã acabou, diz Donald Trump. Não, na verdade, tal acordo, na prática, nunca existiu.
Trump diz que o acordo acabou, mas um acordo pressupõe que os principais pontos de divergência tenham sido resolvidos. No caso do Oriente Médio, eles apenas foram adiados.
O principal problema do acerto é que nunca ficou acertado o que seria feito com a questão nuclear, motivo pelo qual foram deflagradas duas guerras - a de 12 dias, no ano passado, e a iniciada em 28 de fevereiro de 2026.
O cessar-fogo interrompeu os bombardeios por algumas semanas, mas nunca ficou definido se o Irã poderia continuar enriquecendo urânio, qual seria o limite permitido, quem fiscalizaria, quais sanções seriam suspensas e qual seria o cronograma.
O acordo sequer criou mecanismos de implementação. Era falho também por isso. Não havia calendário, verificação, arbitragem e o estabelecimento de consequências para o caso de violações.
Havia ainda dois pontos em aberto: a questão libanesa, tema que a coluna vem destacando como fundamental para o fim de qualquer hostilidade. Mesmo após o anúncio do cessar-fogo, Israel continuou realizando operações no Líbano, mantém uma franja da fronteira ocupada, sob alegação de que o Hezbollah segue atacando a partir dali, e, de fato, o grupo extremista o faz. Havia dúvida até sobre se o Líbano fazia parte do entendimento.
O Líbano, como já destaquei, é campo de experimento das maldades de todos os lados: do Irã, que mantém ali seu mais poderoso braço terrorista, de Israel e dos Estados Unidos.
Aliás, sobre os proxies iranianos: as organizações terroristas terroristas continuaram existindo - e nada disso apareceu no acerto. Hezbollah, Hamas, Houthis seguem capazes de atacar Israel e alvos americanos.
Outros dois pontos me parecem fundamentais: se não foi resolvida a questão nuclear, os EUA, por sua vez, nunca retiraram as sanções econômicas, seu principal instrumento de pressão. Na prática, a Casa Branca manteve a capacidade de elevar ou reduzir a pressão.
Do lado iraniano, o principal instrumento de pressão é o Estreito de Ormuz, que também nunca voltou à normalidade. Foi aberto, mas, na prática, não houve desminagem e havia ataques frequentes a navios ocidentais. O principal gargalo estratégico do Golfo continuava militarizado.
As fragilidades do documento acabam por nos trazer ao dia de hoje, terça-feira (8). Era uma tragédia anunciada.



