
Diplomacia não é sobre 8 ou 80.
É, por excelência, a arte da negociação. Logo, ela consiste em transitar na faixa do possível.
O Planalto já trabalha com a hipótese de que a aplicação pelos Estados Unidos de uma tarifa adicional de 25% sobre produtos brasileiros tornou-se o cenário mais provável.
Isso não significa que as investidas do Itamaraty em Washington para demover o presidente americano tenham fracassado. Na verdade, esse jogo já estava decidido na cabeça de Trump antes mesmo de começar. O presidente americano vê o Pix como uma ferramenta que prejudica interesses econômicos dos Estados Unidos e decidiu retaliar o Brasil. Nem a diplomacia profissional da Casa de Rio Branco, muito menos a ida de Flávio Bolsonaro ao USTR, seriam capazes de fazê-lo mudar de ideia. Haverá tarifaço.
Dito isso, cabe ao Brasil trabalhar na arte do possível, ou seja, nas frestas do canetaço que deve vir entre esta terça (14) e quarta-feira (15). Em outras palavras, é hora de o governo concentrar esforços nas exceções. É na dimensão da lista final de produtos atingidos que o país deverá calibrar sua resposta, que pode ir da continuidade das negociações para ampliar o número de itens poupados da sobretaxa até o eventual acionamento da Lei de Reciprocidade Econômica.
O retrospecto recomenda essa estratégia. Desde o primeiro grande tarifaço de Trump, a lógica tem sido praticamente a mesma: anuncia uma medida ampla, produz forte impacto político e nos mercados e, em seguida, abre uma série de exceções para produtos considerados essenciais à economia americana. Foi assim com matérias-primas industriais, insumos estratégicos e bens para os quais os Estados Unidos não dispõem de oferta suficiente.
No caso brasileiro, a própria proposta apresentada pelo USTR já deixou de fora uma série de produtos sensíveis, como suco de laranja, café, carne, frutas, medicamentos e partes aeronáuticas, justamente porque uma sobretaxa elevaria custos para consumidores e empresas americanas ou criaria risco de desabastecimento.
É o modus operandi de Trump. O anúncio costuma ser muito maior do que a medida que efetivamente entra em vigor. O choque inicial produz manchetes e demonstra força política. Depois, a realidade econômica se impõe.
Não por acaso, empresas americanas que dependem de importações brasileiras passaram a pressionar Washington para retirar determinados produtos da lista de sobretaxas. O Ministério das Relações Exteriores mapeou 43 empresas e associações comerciais dos Estados Unidos que pedem a exclusão de itens brasileiros sob o argumento de que não existem substitutos produzidos no mercado doméstico. Entre elas estão Coca-Cola, Nestlé, Tesla, Faber-Castell, eBay e Siemens. Até siderúrgicas americanas pediram exceções para insumos brasileiros por falta de oferta interna.
É justamente aí que está a margem de negociação. Não parece haver espaço, neste momento, para convencer Trump a desistir. Mas há espaço para reduzir seus efeitos abaixo dos cerca de 4,1 mil produtos exportados pelo Brasil no alvo, segundo levantamento da Confederação Nacional da Indústria (CNI).





