
Eleições sozinhas não garantem democracia. Mas não há democracia sem eleições.
O sistema democrático depende de independência entre os Poderes, pesos e contrapesos, direito de concorrer a cargos públicos, plenas garantias de associação em partidos, sindicatos e movimentos sociais, liberdade política, de imprensa e de expressão, alternância de poder, transparência — e, claro, o voto.
Na Nicarágua, todas essas outras garantias já haviam caído por terra desde 2007, quando Daniel Ortega voltou ao poder. Agora, é o próprio voto que deixa de existir.
Isso mesmo: no país, o voto acabou. No domingo (19), no comício que marcou os 47 anos da Revolução Sandinista, Ortega anunciou que não haverá mais eleições.
A disputa presidencial estava marcada para novembro de 2027 — data que já havia sido empurrada um ano pela reforma constitucional de 2025, que ampliou o mandato presidencial de cinco para seis anos e transformou Rosario Murillo, esposa de Ortega, de vice-presidente em "copresidente".
Ortega e Murillo temem que qualquer fresta possa abrir as condições para que a dissidência ameace seu controle absoluto. Nesta quarta-feira (22), o presidente do Congresso, Daniel Porras, confirmou que colocará em marcha o plano de Ortega — prova cabal de como o parlamento nicaraguense se tornou capacho do Executivo.
Caíram as máscaras. A ditadura que o governo brasileiro e parte da esquerda latino-americana têm dificuldade de admitir está, agora, escancarada, sem margem para ambiguidade retórica.
Dificilmente uma ditadura se instaura de uma hora para a outra. É como a história do sapo em uma panela com água fervente: se você joga o sapo direto na água quente, ele salta e escapa. Mas se ele entra na água fria e ela é aquecida aos poucos, o sapo não percebe a mudança gradual de temperatura e morre.
É esse o mecanismo do autoritarismo contemporâneo: raramente uma eleição já nasce fraudada, ou um golpe explícito troca a Constituição da noite para o dia. O processo se dá por erosão — uma reforma eleitoral aqui, uma lei "de segurança nacional" ali, um Judiciário cada vez mais dócil, uma imprensa cada vez mais asfixiada — cada etapa suficientemente pequena para não provocar reação imediata, mas cumulativamente suficiente para, ao final, ter eliminado toda e qualquer possibilidade de reversão.
Ortega já havia sufocado a oposição nas eleições fraudulentas de 2011, 2016 e 2021. As reformas do ano passado ampliaram seu mandato, na mão grande, para seis anos. A família controla, além do parlamento, o Judiciário e as Forças Armadas — o que fecha o círculo: não resta nenhum dos contrapesos institucionais.
É uma ironia o fato de líderes que comandaram movimentos libertadores no passado, uma vez mordidos pela mosca azul do poder, tornam-se eles próprios sanguinários. Foi assim com Fidel Castro em Cuba. É assim com Ortega: o ex-guerrilheiro sandinista que ajudou a derrubar Anastasio Somoza em 1979 em nome exatamente dos valores que hoje ele mesmo assassina. E (ironia dupla!) invoca o mesmo vocabulário revolucionário e antiimperialista que usou para chegar ao poder — como se a retórica de origem servisse de licença perpétua para qualquer grau de concentração de poder que viesse depois.





