
O jornalista Vitor Netto colabora com o colunista Rodrigo Lopes, titular deste espaço.
França e Espanha enfrentam-se nesta terça-feira (14) na semifinal da Copa do Mundo de 2026, em partida que definirá um dos finalistas do torneio. Essa está longe de ser a primeira vez que as duas nações medem forças nos gramados — e muito menos na história da geopolítica europeia.
Durante 24 anos, os dois países travaram a Guerra Franco-Espanhola (1635–1659). O desfecho desse conflito marcou o declínio do Império Espanhol como a potência dominante do continente e inaugurou o Grand Siècle (Grande Século), período de supremacia política e cultural da França sob o reinado de Luís XIV, o "Rei Sol".
Na realidade, o embate começou como um desdobramento da Guerra dos Trinta Anos — série de conflitos iniciada em 1618 que tornou a Europa Central palco de rivalidades. Contudo, a disputa franco-espanhola continuou a parte por mais de uma década após a assinatura da Paz de Vestfália, em 1648.
O que estava em jogo era a hegemonia europeia: a França buscava quebrar o cerco dos Habsburgo — uma das dinastias mais poderosas da Europa, que governava a Espanha e o Sacro Império Romano-Germânico —, enquanto Madri lutava para manter o status de maior império do mundo. Diante disso, o cardeal Richelieu, primeiro-ministro francês, financiou secretamente reinos protestantes para enfraquecer os espanhóis.
Nos primeiros anos, as tropas espanholas chegaram a ameaçar Paris, mas o rumo da guerra mudou drasticamente na Batalha de Rocroi (1643). Na ocasião, o exército francês, liderado pelo jovem Duque de Enghien, destruiu os famosos tercios espanhóis — a temida infantaria que atuava como uma verdadeira fortaleza móvel e era considerada invencível na Europa há mais de um século. A vitória francesa quebrou o mito da invencibilidade espanhola e consolidou a França como a principal força militar do continente.
A guerra terminou oficialmente com a assinatura do Tratado dos Pirineus, na Ilha dos Faisões, situada na fronteira natural entre os dois países. As consequências redesenharam o mapa e a política europeia: a Espanha cedeu à França o condado de Rossillon, parte da Cerdanha e províncias estratégicas em Flandres.
Para selar a paz, foi acordado o casamento do rei francês Luís XIV com a infanta Maria Teresa da Espanha, filha do monarca espanhol Filipe IV.





