
O Brasil decidiu responder dentro do protocolo diplomático clássico.
Não entrou na lógica de Donald Trump de personalizar conflitos. Não transformou a crise comercial em uma disputa entre Lula e Trump. Não respondeu postagem por postagem em redes sociais. Ou seja, optou pelo caminho institucional.
A reação, ao menos até agora, segue a cartilha da Casa de Rio Branco, ao preservar interlocutores, respeitar a hierarquia, produzir registros formais e demonstrar que a negociação ocorreu antes de qualquer medida de retaliação.
O tom adotado pelo ministro Mauro Vieira, o porta-voz do governo na reação ao tarifaço, chama atenção pelo tom duro dirigido ao secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio. Mas, repare, foi uma resposta de chanceler para chanceler, preservando a hierarquia institucional e evitando transformar uma crise comercial em um embate pessoal entre chefes de Estado.
O governo poderia ter escolhido outro caminho. Lula poderia ter convocado uma cadeia der rádio e TV para responder diretamente a Trump ou elevar o confronto retórico. Não o fez. Ao colocar na mão de Vieira a resposta, o Brasil envia uma mensagem adulta, de que trata o episódio como uma questão de Estado, não como um duelo entre presidentes —- a ver até quando essa tom será mantido, especialmente a partir de falas de improviso do presidente brasileiro a partir de hoje e à medida em que a campanha eleitoral avançar.
Trump aparece apenas duas vezes no discurso, ao referir tentativa de interferência no Judiciário. Mas, em vez de atacar o presidente americano, concentra críticas na investigação da Seção 301, no caráter unilateral das tarifas e na ausência de fundamento econômico.
Isso é relevante porque, ao medir palavras, o Itamaraty procura manter aberta a possibilidade de negociação. Não fecha portas. Mais: procura construir um histórico:
Vieira faz questão de listar as mais de 30 reuniões entre os dois lados, 11 contatos diretos com Rubio, duas defesas técnicas, viagens a Washington e conversas entre os presidentes.
O Brasil tenta construir uma narrativa para mostrar à comunidade internacional — e eventualmente à OMC — que negociou de boa-fé e esgotou os canais diplomáticos antes da escalada comercial. Em vez de dizer que Trump "está errado", ele demonstrou por que os argumentos americanos são pouco consistentes.


