
O jornalista Vitor Netto colabora com o colunista Rodrigo Lopes, titular deste espaço.
O presidente Javier Milei classificou a ação dos jogadores argentinos sobre as Ilhas Malvinas como "coisas que acontecem em campo" e afirmou que o episódio não faz parte do conflito diplomático.
— Na pior das hipóteses, a Argentina receberá uma multa de US$ 30 mil. A reação dos jogadores é compreensível; a emoção os domina e leva a discussões sobre uma sanção — acrescentou o mandatário em entrevista ao El Observador.
No entanto, para políticos do Reino Unido, a atitude não foi levada "na esportiva" como sugeriu o presidente sul-americano. O governo do primeiro-ministro Keir Starmer solicitou oficialmente à Fifa que investigue a seleção argentina pela exibição da faixa, alegando que o gesto viola as regras que proíbem mensagens ou slogans políticos em campo durante o torneio.
O que aconteceu?
A briga pelas Ilhas Malvinas, que antes se limitava aos livros de história e à política, entrou de vez no gramado após a vitória — de virada — da Argentina sobre a Inglaterra durante a semifinal da Copa do Mundo de 2026, refletindo uma rivalidade entre os dois países que vai muito além das quatro linhas.
Após o apito final, os jogadores levantaram uma faixa com os dizeres: "As Malvinas são argentinas", sendo rapidamente acompanhados por outros atletas no gramado.
Como esta coluna tratou nos últimos dias, a disputa pelas Ilhas Malvinas remete aos anos 1980, quando Argentina e Inglaterra travaram uma guerra de 74 dias pela soberania do arquipélago localizado no Atlântico Sul. As ilhas eram administradas pelo Reino Unido desde 1833, mas a Argentina sempre reivindicou a soberania sobre o território, alegando proximidade geográfica e herança da colonização espanhola.
Na época do conflito, em 1982, a ditadura argentina enviou soldados para a capital do arquipélago, Port Stanley — rebatizada pelos hermanos como Puerto Argentino —, mas a Inglaterra de Margaret Thatcher, militarmente superior, mobilizou uma poderosa força-tarefa para retomar o território. No dia 14 de junho daquele ano, o comando argentino nas ilhas assinou a rendição.
Apesar disso, os hermanos nunca aceitaram a derrota, e a pauta volta à tona em toda campanha política argentina, seja de direita ou de esquerda. O próprio Javier Milei já havia trazido a polêmica de volta ao debate público recentemente ao reivindicar a soberania sobre o Território Ultramarino Britânico.
E a Argentina pode ser punida?
Embora Milei tenha minimizado o caso, a Fifa proíbe terminantemente manifestações políticas, religiosas ou pessoais em uniformes, faixas e outros materiais exibidos durante as partidas de seus torneios.
A entidade máxima do futebol informou que aguarda os relatórios oficiais dos oficiais de arbitragem e delegados da partida para tomar uma decisão. No Reino Unido, a pressão é forte: além da cobrança do governo de Starmer, o secretário britânico de Negócios e Comércio, Peter Kyle, classificou o ato como "totalmente inadequado".
Esta, contudo, não seria a primeira punição do tipo sofrida pelos argentinos. Em 2014, a Fifa multou a Associação do Futebol Argentino (AFA) em 30 mil francos suíços após os jogadores exibirem uma faixa idêntica antes de um amistoso contra a Eslovênia, realizado em Buenos Aires.





