
O jornalista Vitor Netto colabora com o colunista Rodrigo Lopes, titular deste espaço.
Uma semana após os terremotos que abalaram a Venezuela, o cenário é de pouco avanço. Essa é a visão compartilhada por vários veículos de imprensa que acompanham a busca por desaparecidos em meio aos escombros em diversas regiões.
Porém, esta não é apenas a visão retratada pelos jornalistas que acompanham a situação in loco. Desde a semana passada, a coluna vem conversando com venezuelanos sobre o caos que o país enfrenta.
É o caso do pastor Josué Zubiandi, da Igreja do Evangelho Quadrangular, morador de Caracas que atua no amparo aos afetados. Ele viajou a La Guaira, região mais impactada, no início da semana:
— O cenário continua crítico. O Estado de La Guaira está entre 70% e 80% destruído — contou à coluna.
Zubiandi relatou que há um forte cheiro de decomposição nas cidades e que milhares de pessoas continuam desaparecidas, tornando muito difícil calcular o número exato de vítimas:
— A esta altura, a esperança de vida já começa a desaparecer, pois é difícil que as pessoas sob os escombros continuem vivas após mais de 90 horas.
Segundo o pastor, há forças de resgate do México, França, Estados Unidos, República Dominicana e El Salvador atuando na região. O Brasil também enviou ajuda humanitária — a Marinha começou a operar um hospital móvel para atender às vítimas dos sismos.
— Eu fui até La Guaira e tive a oportunidade de conversar com os socorristas de El Salvador. O relato que me passaram foi de 40 corpos sem vida retirados dos escombros em um único dia (domingo, 28). Mas, naquele dia, nenhum vivo.
O pastor explica que a intervenção do governo venezuelano é mínima e que a maior parte da assistência tem sido fornecida por fundações e organizações internacionais.
— Me surpreende o fato de que, apesar das limitações que os cidadãos deste país enfrentam, as pessoas tenham se organizado por conta própria para fornecer alimentos, mantimentos, roupas e outros tipos de ajuda para quem ficou em situação de rua.
Para ele, é difícil prever o retorno à normalidade.
— Do meu ponto de vista, acho que o processo de realocar as famílias pode levar aproximadamente de seis a nove meses, e a reconstrução pode demorar uns dois anos. Estou dizendo isso com base no que já aconteceu em 1999, quando houve uma forte enxurrada.
Os números da crise
O balanço mais recente divulgado pelas autoridades nesta quarta-feira (1º) apontava para 2.295 mortos e 11 mil feridos.
Uma estimativa da Organização das Nações Unidas (ONU) aponta que cerca de 50 mil pessoas ainda estão desaparecidas. Já a Organização Internacional para as Migrações (OIM) calcula que mais de 6 milhões de pessoas possam ter sido afetadas pelos tremores. Em paralelo, a Organização Mundial da Saúde (OMS) alerta para o colapso do sistema hospitalar: pelo menos três unidades de saúde foram gravemente danificadas e outras seis estão funcionando apenas parcialmente.
Para pesquisadores internacionais que estudam grandes desastres naturais, a contagem oficial de mortos e feridos deve aumentar de forma expressiva nas próximas semanas, e há o risco de que o balanço final nunca retrate a totalidade real de vítimas.





