
Sejamos sinceros: tão previsível quanto a eliminação da Seleção Brasileira antes das quartas de final do Mundial era uma tentativa de Donald Trump de influenciar a Copa do Mundo.
O presidente americano, convencido de que pode interferir em praticamente qualquer assunto, raramente separa política, negócios, mídia e esporte. Tudo faz parte de um mesmo tabuleiro, ou, em uma melhor metáfora, de um reino comandado a partir do número 1.600 da Pennsylvania Avenue, em Washington.
Trump sempre governou de forma personalista. Tem o hábito de transformar questões de Estado em conversas diretas, quase pessoais. Por isso, não surpreende o telefonema a Gianni Infantino. Seu estilo é esse: ligar diretamente para governadores, CEOs, parlamentares, dirigentes esportivos e chefes de Estado quando entende que existe um interesse americano em jogo.
É a lógica da negociação direta, do olho no olho, frequentemente à margem da liturgia dos cargos e, não raro, atropelando instituições e a distância que elas precisam manter do poder político.
Para qualquer governante, uma Copa do Mundo é uma vitrine do mandato. Para Trump, é mais do que isso: é um ativo estratégico. Ele transformou o torneio em projeto de governo e passou a enxergar o desempenho da seleção americana como parte do êxito — ou do fracasso — de sua administração.
A iniciativa também não causa espanto diante da proximidade entre Trump e Infantino. O presidente da Fifa participou de diversos eventos na Casa Branca, chegou a adiar um congresso da entidade para acompanhar Trump em uma viagem ao Oriente Médio e, no episódio mais simbólico dessa relação, entregou ao presidente americano um inédito "Prêmio da Paz da FIFA", justamente quando Trump demonstrava frustração por ainda não ter recebido o Nobel da Paz.
Não seria a primeira vez que Trump mistura diplomacia e futebol. Em 2018, durante a disputa para sediar esta Copa ao lado de Canadá e México, chegou a sugerir que países que não apoiassem a candidatura americana poderiam enfrentar consequências diplomáticas.
Quando o presidente de um dos países-sede telefona para o presidente da Fifa para tratar de um caso envolvendo sua própria seleção, a entidade fica exposta. Ainda que a decisão disciplinar tenha fundamento técnico, segundo a entidade, a simples percepção de interferência já é suficiente para retirar os esqueletos do armário.
Depois do FIFAgate, da queda de dirigentes, das investigações internacionais e de décadas tentando reconstruir sua credibilidade, a Fifa deveria ser a primeira interessada em evitar qualquer sombra de dúvida sobre sua independência. Porque, no esporte, como na Justiça e na política, não basta ser imparcial. É preciso também parecer imparcial.






