
O jornalista Vitor Netto colabora com o colunista Rodrigo Lopes, titular deste espaço.
As recentes movimentações dos Estados Unidos em relação ao Brasil — desde a classificação do Primeiro Comando da Capital (PCC) e do Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas até o anúncio de dois novos tarifaços comerciais — têm motivado políticos brasileiros e, principalmente, os pré-candidatos à Presidência, a utilizar o assunto nas campanhas eleitorais.
Os fatos, na avaliação de Oliver Stuenkel, professor da FGV e pesquisador do Carnegie Endowment e de Harvard, podem interferir no cenário eleitoral de outubro.
— Se tem poder de mudar as eleições no Brasil? Certamente existe essa possibilidade. Mas acho que, muitas vezes, as ações acabam sendo contraproducentes. As tarifas devem ajudar Lula, enquanto a designação dos cartéis como grupos terroristas deve favorecer Flávio (Bolsonaro) — enfatizou Stuenkel à coluna.

Os três fatos que afetam diretamente o Palácio do Planalto ocorrem após a reunião bilateral, no início de maio, entre Lula e Trump na Casa Branca. Entretanto, Stuenkel lembrou que o Brasil, atualmente, não é uma prioridade estratégica para Washington, o que deixa a política externa dividida entre alas com opiniões distintas na Casa Branca.
— Não existe uma pessoa no governo americano que esteja pensando na condução coerente da política americana em relação ao Brasil. Ou seja, você tem partes diferentes do governo com interesses diferentes, e pessoas com visões muito distintas sobre os objetivos dos EUA no Brasil. Converso toda semana com integrantes da administração americana, com diplomatas, com pessoas no Departamento de Justiça, no Pentágono, na Casa Branca, e você encontra todo tipo de opinião, porque o Trump não articula os objetivos claramente. O que estamos vendo agora são grupos distintos se movimentando, de novo, sem uma coordenação. Isso torna a política americana mais imprevisível — pontuou.
De acordo com o professor, essa divisão fica clara no embate entre alas do governo americano:
— Existe uma turma no Departamento de Estado que enxerga a relação com o Brasil por meio de um filtro ideológico e que acredita que deve ser o objetivo do governo Trump apoiar o Flávio Bolsonaro, e que dialoga com o Flávio, com o Eduardo... Aí tem outros que acham que aquilo é uma receita para uma relação bilateral inerentemente instável, que é preciso pensar mais estrategicamente, estabilizar a relação com o Lula, porque nem sempre a direita vai estar no poder no Brasil, que é preciso pensar em questões como terras raras e assim por diante. E essa foi a turma que ajudou a estabilizar a relação e facilitar uma conversa produtiva entre Trump e Lula.
E o Pix?
No primeiro tarifaço de 25%, anunciado na terça-feira (2), uma das justificativas do governo americano foi o Pix, classificado por Washington como uma política comercial "desleal ou injusta". Para Stuenkel, o argumento pode trazer pontos negativos para Donald Trump.
— Do ponto de vista político, essas críticas em relação ao Pix são muito contraproducentes. Existe uma ampla aceitação e um apoio da população brasileira, e essas críticas geram a sensação de que os Estados Unidos não têm uma alternativa viável hoje. Em geral, acho que toda essa postura americana, a médio e longo prazo, reduz a influência dos EUA na América Latina e no Brasil, porque gera incerteza. Isso empurra o Brasil para buscar outras parcerias — analisa o professor.
Apesar dos dados presentes nos relatórios que embasam as tarifas, o pesquisador acredita que o recuo dependerá de uma decisão estritamente política.
— É um governo muito imprevisível. Trump pode reverter isso, o problema é que existe todo um arcabouço técnico. Então, falando com os tecnocratas, é difícil mudar neste momento, porque essa decisão tem toda uma justificativa burocrática. O Trump pode, com uma canetada, reverter isso, mas o processo ficou mais difícil.





