
O jornalista Vitor Netto colabora com o colunista Rodrigo Lopes, titular deste espaço.
Os Estados Unidos, por meio do Escritório do Representante Comercial (USTR), concluíram na segunda-feira (1º) uma investigação que apurava deslealdade comercial e propuseram uma nova retaliação contra o Brasil: a imposição de um tarifaço de 25% sobre produtos brasileiros.
Ao todo, os EUA elencam seis pontos para impor as novas tarifas.
- Decisões judiciais do STF e big techs;
- O Pix e a concorrência no comércio digital;
- Barreiras ao etanol americano; tarifas preferenciais desleais;
- Desmatamento ilegal;
- Enfraquecimento do combate à corrupção e à pirataria.
A medida, no entanto, já era esperada por parte do governo brasileiro, do mercado e de analistas internacionais.
Essas novas tarifas determinadas por Donald Trump entram no contexto da Seção 301 da Lei de Comércio de 1974. Trata-se de uma legislação que servia para proteger a economia americana e que permite ao governo investigar outros países quando acredita que eles estão criando barreiras ou adotando práticas comerciais consideradas injustas contra empresas dos EUA.
Mas quais são as intenções de Trump?
O professor de Relações Internacionais e coordenador do Núcleo de Estudos e Negócios Americanos da ESPM-SP, Roberto Uebel, avalia, ao menos, quatro possíveis intenções de Trump com a aplicação das medidas:
- Melhorar o cenário para as midterms (eleições de meio de mandato em novembro);
- Sinalizar apoio e proteção ao agronegócio americano;
- Melhorar o cenário econômico dos EUA;
- Melhorar sua imagem pessoal, recuperando a popularidade interna.
— Ele vai tentar. A pressão inflacionária da guerra no Irã influenciou o consumidor americano, o custo de vida ficou mais alto e isso traz insatisfação. Tem a questão de Cuba, talvez ele invada para tentar conseguir o apoio do eleitorado mais conservador... Mas, se ele conseguir reverter o cenário econômico, melhorar minimamente, isso pode se traduzir em um aumento de popularidade e aí ele pode ter um quadro melhor em novembro. Temos de ver se a Copa vai ter efeito na popularidade do Trump. São várias variáveis que só vamos conseguir ter um panorama melhor provavelmente a partir de agosto, quando já tiver terminado a Copa e o tarifaço já estiver entrando em vigor.
O Brasil pode tentar reverter?
Para Uebel, o cenário da relação dos Estados Unidos com o Brasil é ruim, e as atuais medidas podem ter um efeito até pior do que o tarifaço colocado em prática no ano passado:
— Pode ser pior por causa do uso eleitoral desse tarifaço aqui no Brasil. E como a Justiça americana havia julgado o primeiro tarifaço, ele usa agora esse mecanismo da Seção 301, que é dificilmente reversível até nas cortes americanas. Eu entendo que ele pode ter um impacto maior e mais significativo, dada a dificuldade de revertê-lo domesticamente e, de novo, por essa questão eleitoral (do Brasil). Talvez o governo brasileiro tenha ficado esperançoso com aquela reunião de três horas (no dia 7 de maio) e acabou superestimando, não contou com a imprevisibilidade de Trump — explicou.
Segundo o professor, assim como a intenção dos EUA de classificar o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas, a aplicação da Seção 301 é uma política unilateral americana com poucas chances de reversão.
— É uma medida doméstica dos Estados Unidos, não tem como o Brasil, por exemplo, ir à Justiça brasileira tentar reverter isso. Isso é unilateral. O que se pode tentar é construir algum tipo de acordo. O Brasil estava ainda nesse caminho de tentar construir um entendimento, mas me parece que o governo Trump estaria muito preso a essa lei para alcançar sua política comercial a nível global. É aquilo que chamamos de um "bilateralismo com perfume de unilateralismo", então não há muito o que o Brasil fazer a não ser tentar construir algum tipo de entendimento — explicou.
A decisão final e a aplicação das medidas têm prazo legal limite até o dia 15 de julho.




