
Aí você faz uma guerra, promete algumas dezenas de coisas, mata pessoas (1,2 mil iranianos), perde militares (13 americanos), bagunça a economia global, com impactos inclusive no preço do combustível que você paga no posto, aqui no Rio Grande do Sul, e nada muda.
Ou, como costumo chamar esse tipo de movimento internacional: muda para não mudar.
Grosso modo, é o que ocorreu na guerra deflagrada pelo governo Donald Trump contra o Irã.
A promessa era de mudança de regime, ou seja, a queda da ditadura fundamentalista dos aiatolás, o compromisso de que o país não desenvolverá uma bomba atômica e que terá seu arsenal de mísseis balísticos destruído. Quase quatro meses de conflito depois, nenhum desses objetivos foi alcançados: a ditadura segue de pé, aliás, renovada, demonstrando uma incrível resiliência, não há garantias de que o Irã irá se desarmar e, tampouco, de que não levará adiante seu programa nuclear.
O anunciado acordo, que deveria ser celebrado nesta sexta-feira (19), mas a cerimônia em Genebra foi esvaziada porque o documento foi assinado na quarta-feira (17) por Trump, em Versalhes, é, na verdade, um memorando de entendimento. Os termos aqui têm valor: a principal diferença é a força jurídica e política do compromisso.
Um memorando de entendimento é, em geral, uma declaração de intenções. Diz, em resumo, que as partes concordam em trabalhar juntos com objetivos traçados e com a intenção de negociar os detalhes. Estabelece princípios gerais, define um roteiro de negociações, pode ser juridicamente vinculante e costuma ser mais fácil de assinar e, diga-se de passagem, de modificar.
Um acordo ou tratado é um compromisso mais formal: contém obrigações específicas, estabelece prazos, metas e mecanismos de fiscalização, pode prever sanções em caso de descumprimento e, frequentemente, tem valor jurídico internacional.
O memorando é um começo de processo, não o fim. Já era de se esperar que Donald Trump cantasse vitória, porque sua vaidade assim lhe orienta, mas, na prática, os EUA perderam. Não só porque, nesses 107 dias de conflito, a Casa Branca não alcançou seus objetivos - pouco claros no início, é verdade, mas evocados à medida em que o Oriente Médio ardia -, mas, principalmente porque, no campo de batalha, os americanos foram obrigados a recuar. O Estreito de Ormuz se tornou a principal ferramenta de barganha do conflito. E o Irã, ao bloqueá-lo fez com que os preços dos combustíveis disparassem, corroendo a popularidade de Trump, que, aliás, enfrentará eleições de meio de mandato em novembro. No campo das alianças, governos da região - Catar, Emirados Árabes Unidos, Bahrein e Arábia Saudita, se perguntam se vale a pena pagar o preço de abrigar bases dos EUA em seus territórios, se, na hora H, os americanos as evacuam e, quem sofre os ataques iranianos são as populações dessas nações.
Dubai, Doha e outras capitais fundamentais para comércio mundial (e o turismo) foram atingidas por drones suicidas e mísseis.
Trump subestimou a estratégia do Irã e minimizou a lógica da luta por sobrevivência - porque o regime fanático sobreviveu -, como, inclusive, os EUA já deveriam ter prendido como lição no Vietnã e no Afeganistão.
Não deu certo.



