
Não se trata de vilanizar a tecnologia. Minha geração cresceu ouvindo que videogames estragavam aparelhos de televisão. Tampouco se trata de ignorar os benefícios das redes sociais: elas ampliaram o senso de comunidade, aceleraram a inovação e, em muitos casos, abriram frestas em muros erguidos por ditaduras e regimes autoritários.
Mas é preciso olhar para a decisão do governo do Reino Unido como um debate que merece ser levado a sério. Na segunda-feira (15), o primeiro-ministro britânico, Keir Starmer, anunciou a intenção de aprovar, até o fim do ano, uma legislação que restrinja o acesso de menores de 16 anos às redes sociais.
Também está na hora de o Brasil discutir as plataformas digitais com a mesma seriedade dedicada a outros temas de saúde pública, como o tabaco, o álcool e os jogos de aposta. No caso britânico, a proposta vai além das redes sociais e alcança aplicativos de jogos eletrônicos, com medidas como restringir a comunicação entre menores e desconhecidos em determinados serviços.
Os riscos da exposição precoce e intensa às redes sociais são amplamente documentados por pesquisadores, pediatras, psicólogos e autoridades de saúde. Isso não significa que todo adolescente desenvolverá problemas, mas aumenta significativamente a probabilidade de consequências negativas. A preocupação mais evidente está na saúde mental. Estudos apontam maior incidência de ansiedade, depressão, baixa autoestima e comparação constante com padrões irreais de beleza, riqueza e sucesso. A lógica das curtidas, comentários e compartilhamentos cria uma busca permanente por validação externa justamente em uma fase da vida marcada pela construção da identidade.
Há também a questão da dependência. As plataformas são projetadas para capturar atenção e prolongar o tempo de permanência do usuário. O resultado pode ser dificuldade de desconexão, prejuízos ao sono, redução da capacidade de concentração e uso compulsivo dos dispositivos. Ao mesmo tempo, a violência entre adolescentes ganhou uma dimensão digital: humilhações públicas, disseminação de boatos, exclusão de grupos e divulgação de imagens sem consentimento passaram a fazer parte do cotidiano de muitas famílias.
Nem mesmo os mecanismos de controle existentes conseguem impedir totalmente o acesso de menores a conteúdos violentos, pornográficos ou relacionados à automutilação, transtornos alimentares, discursos de ódio e desinformação. Soma-se a isso o risco de abordagens por adultos desconhecidos, abrindo espaço para aliciamento sexual, extorsão, golpes financeiros e manipulação emocional.
Entidades como a Organização Mundial da Saúde (OMS), a Unesco e a American Academy of Pediatrics (AAP) não defendem necessariamente a proibição total, mas recomendam supervisão parental, limites de tempo, educação digital e adiamento do acesso irrestrito às redes. O debate internacional já não gira em torno da existência ou não dos riscos. A discussão é qual a idade adequada para ingresso nesses ambientes e quais mecanismos de proteção devem ser exigidos das plataformas.
Hoje, o Brasil não proíbe menores de 16 anos de utilizar redes sociais. Um adolescente de 13, 14 ou 15 anos pode manter contas, desde que observadas as regras das plataformas e as normas de proteção previstas em lei. O avanço mais recente foi a criação do chamado ECA Digital, que estabeleceu exigências mais rígidas, como mecanismos de verificação de idade e supervisão parental.
Há mais de um ano, o país também proibiu o uso de celulares nas salas de aula. Apesar das resistências iniciais, professores, diretores e educadores relatam ganhos concretos em atenção, convivência e aprendizagem. O Brasil deu um primeiro passo. Está na hora de discutir o próximo.



