
Foi uma queda anunciada. Não por escândalo. Não por problemas econômicos. Mas por pressão interna no Partido Trabalhista e por um cálculo político.
O primeiro-ministro Keir Starmer entregou sua renúncia ao rei Charles III nesta segunda-feira (22), em meio ao "terremoto político" que alcançou o Reino Unido desde as eleições municipais de 7 de maio, em que os trabalhistas perderam redutos importantes e viram avançar a direita populista liderada pelo partido Reform UK, de Nigel Farage, um dos articuladores do Brexit.
As derrotas locais acenderam o alerta vermelho entre as fileiras trabalhistas, porque os caciques do partido anteviram uma potencial derrota nas eleições gerais, que devem ocorrer até agosto de 2029.
A verdade é que a direita radical de Farage, que não tem nada a ver com a tradicional, representada historicamente pelo Partido Conservador, avança sobre o arquipélago de Sua Majestade, tendo ganho, recentemente, no País de Gales.
Assim, com a base fragilizada, Starmer renuncia para salvar o governo - e, em um gesto quase desesperado, para 2029. Como se trata de uma monarquia parlamentarista, os trabalhistas seguirão governando. Não há ruptura, como não houve quando Margaret Tatcher passou o bastão para John Major, Tony Blair para Gordon Brown, David Cameron para Theresa May, entre outros. Mas, no caso dos trabalhistas, é bastante importante a troca por dois motivos: um porque é um mandato recente, Starmer venceu com ampla maioria, encerrando uma década de governos conservadores. Segundo porque ele provavelmente cederá lugar a um político pouco conhecido fora do Reino Unidos.
Uma manobra política trouxe de volta ao cenário nacional Andy Burnham, que já integrou o gabinete, já foi ministro da Saúde e da Cultura, mas caiu no ostracismo após disputar a liderança dos trabalhista sem 2015 com Jeremy Corbyn. Perdeu, curou as feridas em seu reduto eleitoral e, dois anos depois, conquistou a prefeitura metropolitana de Manchester, uma região industrial importante, com mais de 3 milhões de pessoas.
Burnham voltou a ter protagonismo político não só porque governa essa área importante do norte da Inglaterra - já está em terceiro mandato -, mas porque concentra algumas qualidades: dentro dos trabalhistas, representa uma figura de centro, é comunicativo, combina experiência administrativa local e nacional e tem grande popularidade.
Ele está em terceiro mandato. Mas, como prefeito, ele não poderia chegar a primeiro-ministro. Então, houve uma segunda manobra política para cacifá-lo a Downing Street número 10. Um deputado do partido renunciou, Josh Simons. Houve eleições complementares em Makerfield, e Burnham venceu, voltando a Westminster (o parlamento).
Ele será, muito provavelmente, o futuro primeiro-ministro. Tudo isso, em um ato desesperado para salvar o governo e os trabalhistas.





