
Não é incomum a política invadir o esporte, como a coluna já destacou, especialmente em vitrines globais como os Jogos Olímpicos e a Copa do Mundo: de atentados terroristas durante competições a protestos e boicotes.
Mas o que se verá nesta segunda-feira (15), no antes, no durante e no depois da partida entre Irã e Nova Zelândia, pelo Grupo D do Mundial, tem contornos inéditos. Pela primeira vez na história da Copa, um país em guerra receberá a seleção de uma nação com a qual está em conflito. É o caso dos EUA, anfitrião, e do Irã, nação com a qual está em guerra desde 28 de fevereiro.
A geopolítica em seu estado mais puro invadiu o futebol. A começar pelas dificuldades de acesso, também antecipadas pela coluna: a comitiva está hospedada em Tijuana, no México, e só recebeu autorização para cruzar a fronteira para os jogos um dia antes da partida. O time chegou no domingo (14).
O próprio presidente da Federação Iraniana de Futebol, Mehdi Taj, está proibido de entrar nos Estados Unidos em razão de suas relações com a Guarda Revolucionária, o maior e mais poderoso organismo institucional do país dos aiatolás - e considerado uma organização terrorista por Estados Unidos e Canadá.
Los Angeles, local da partida desta segunda, abriga a maior comunidade iraniana fora do Irã, o que acrescenta doses de tensão sobre como irá se comportar dentro de fora do estádio. Fora já se teve uma amostra na chegada da delegação, com manifestações contra o regime. Dentro não deve ser diferente. Quem foge de uma ditadura, como a dos aiatolás, milita fortemente contra o regime.
Logo, é possível esperar manifestações na torcida, cartazes e, eventualmente, até bandeiras pré-Revolução Islâmica, em referência ao regime do xá Reza Pahlevi, deposto pelos aiatolás em 1979. O filho do ex-monarca mora nos EUA.
Também é de se esperar ações por parte de torcedores americanos, ainda que as ações de Donald Trump no Irã não recebam muito respaldo entre os cidadãos dos EUA.
A federação iraniana alertou que, em caso de protestos, citando explicitamente a bandeira, por exemplo, irá interromper sua participação no meio do jogo. Isso vale para todas as partidas.
Manifestações políticas de jogadores iranianos não podem ser descartadas - o que colocaria o atleta sob forte risco de retaliação. Se isso ocorrer, pedido de asilo político deve ser imediato.
O anúncio do acordo entre EUA e Irã, previsto para ser assinado na sexta-feira (19), pode ajudar a distensionar um pouco o ambiente. Não há detalhes do acerto, mas, assim como no mercado financeiro, a promessa de um cessar-fogo duradouro já gera bons uma expectativa positiva.






