
O jornalista Vitor Netto colabora com o colunista Rodrigo Lopes, titular deste espaço.
Há pouco mais de um mês, a Bolívia enfrenta semanas consecutivas de manifestações generalizadas que geram grave impacto nas principais cidades. O cenário no país é de ruas vazias, aulas virtuais e desabastecimento crítico de alimentos, remédios e combustíveis.
Dados oficiais apontam que manifestantes bloqueiam cerca de 80 a 90 pontos em estradas de seis dos nove departamentos do país, com maior concentração em Cochabamba e La Paz, a capital. Os protestos já deixaram um saldo de dez mortos, incluindo sete pessoas que faleceram devido à impossibilidade de receber atendimento médico em decorrência dos cercos rodoviários.
A onda de insatisfação popular também já provocou baixas no primeiro escalão do governo de Rodrigo Paz — que assumiu o poder há cerca de seis meses enfrentando a maior inflação do país em quase 40 anos. Três ministros (Educação, Defesa e Trabalho) caíram desde o início dos protestos.
O que está acontecendo na Bolívia?
O país enfrenta os reflexos da pior crise econômica, agravada pela drástica queda nas exportações de gás natural. O estopim para as paralisações gerais ocorreu após a edição de um decreto que retirou o subsídio estatal aos combustíveis, disparando o custo de vida e gerando uma escassez crônica de diesel e gasolina.
O que começou como uma pauta setorial de agricultores, caminhoneiros, mineiros e professores transformou-se em uma ampla mobilização política. Agora, as organizações operárias e os movimentos camponeses exigem a renúncia imediata do presidente Rodrigo Paz.
Os protestos ganharam força a partir da atuação da Central Operária Boliviana (COB), que inicialmente cobrava reajuste salarial e o fim das medidas de austeridade.
A crise conta ainda com forte componente de disputa política interna: setores alinhados ao ex-presidente Evo Morales lideram as marchas mais radicais em direção à sede do governo em La Paz, alegando defender a Constituição e os recursos naturais do país, enquanto o governo de centro-direita acusa o movimento de tentar desestabilizar a ordem democrática.
Diante da crise, o Brasil enviou, a pedido do próprio presidente boliviano, ajuda humanitária. Um avião da FAB saiu de Canoas transportando 16 toneladas de arroz e cinco toneladas de leite em pó.


