
A colaboração francesa com os nazistas foi uma escolha consciente e cuja memória ainda povoa o imaginário político da França, aponta a historiadora Franciele Becher que lançou recentemente o livro Sob a sombra da suástica: a França ocupada, pela editora Contexto.
Na obra, ela detalha a experiência única da França durante o conflito, do contexto histórico até os esforços de colaboração e resistência.
Formada em História pela Universidade de Caxias do Sul (UCS) e com mestrado pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), sua trajetória foi dedicada a pesquisar o que chama de "infâncias irregulares" em períodos autoritários.
No doutorado, defendido na Universidade Paris 8, ela investigou a percepção de crianças e adolescentes franceses sobre o conflito que destruiu a Europa no século 20. Seu material de pesquisa reuniu histórias de jovens vulneráveis que passaram pelas instituições da Justiça dedicada a temas relacionados a menores de idade no país.
À coluna, ela falou sobre o estudo das infâncias em contextos de guerra, a história da França sob o regime de Vichy e como esses episódios ainda estão presentes na política do país.
Confira a entrevista
Como você chegou para esse doutorado em Paris?
Eu fiz a minha graduação em licenciatura em História na UCS e, desde a graduação, já pensando as infâncias irregulares, essas infâncias marginalizadas que, eventualmente, tinham conflito com a lei, que eram atendidas por instituições. Fui para o mestrado na UFRGS onde trabalhei com as infâncias marginalizadas durante a ditadura e atuação das Febem (Fundação Estadual para o Bem-Estar do Menor). Então, a minha tese na Universidade de Paris 8 foi pensar experiência adolescente da Segunda Guerra Mundial. O que é ser adolescente, o que é ser uma criança durante uma guerra tão violenta em um país ocupado. Juntei tudo que eu sabia dessas infâncias marginalizadas e levei para a situação autoritária francesa do século 20, que é a Segunda Guerra Mundial, que é a ocupação nazista.
Por que estudar infâncias?
O mundo é feito de adultos, as regras são dos adultos, e temos muita perspectiva dos adultos, mas há uma parcela não negligenciável de pessoas jovens que, mesmo não tendo as mesmas ferramentas que os adultos e o poder de decisão, também vivem a história de uma maneira muito específica. Influenciam na própria história, têm opiniões sobre a própria história, são protagonistas da história.
Os adolescentes têm escolhas, vontades, escolhem ir para a guerra, fazer parte daquela história de uma forma ou outra
FRANCIELE BECHER
Autora
A história da guerra é muito masculina, sempre no masculino, das batalhas, dos comandantes. Atualmente, temos mais a perspectiva das vítimas. Parece muito óbvio entrevistar quem está sofrendo bombardeios, mas não é tão óbvio assim, é uma coisa recente. Olhar essas infâncias na Segunda Guerra Mundial do ponto de vista das vítimas – às vezes, de algozes, porque muitos desses adolescentes escolhem o campo inimigo – também reconhece uma certa agência. Os adolescentes têm escolhas, vontades, escolhem ir para a guerra, fazer parte daquela história de uma forma ou outra. Mesmo os menores de 18 anos, para quem imputamos menos responsabilidades do que os adultos, ou acha que eles devem seguir simplesmente as regras dos adultos, eles também subvertem essas regras.
Como os adolescentes franceses participaram da Segunda Guerra Mundial?
Esses meninos e meninas adolescentes que pesquisei de alguma forma tinham alguma questão com a lei. Seja porque tivessem cometido furtos, alguns pequenos crimes, ou porque estivessem em situação de vulnerabilidade por algum motivo. Principalmente os meninos, pegam em armas. Têm uma vontade de fazer guerra, uma vontade de entrar na guerra porque eles são patriotas, para salvar o seu país da ocupação.
Tenho 690 dossiês. Em uma centena deles, esses meninos se envolveram com a resistência: desde se engajar em um episódio muito pontual em 1944, quando começam a liberar as cidades; alguns têm alguns engajamentos mais longos porque os pais já são militares. Então, eles já têm essa tradição na família. Muitos fingem que são mais velhos, para poder se alistar. Do lado inimigo, tenho 30 casos (que se aliaram aos nazistas) de pessoas que procuraram um certo status, porque, enquanto os nazistas estão ganhando, estar do lado deles, dá muito dinheiro, muitas vezes por causa de pilhagem. Isso dá um status de poder, porte de arma. Então, muitos meninos procuram essa violência também por uma questão mais pragmática ou por coerência ideológica, porque aceitam essa lógica supremacista, racista dos nazistas e também se engajam no lado inimigo.
Historicamente, as crianças ocuparam papéis diferentes em conflitos dos que ocupam hoje?
A participação de crianças em guerra não é uma novidade. Desde a Antiguidade, sempre vamos ver alguma criança muito jovem. Desde que existe fotografias, conseguimos ver, nos batalhões, crianças muito pequenas. Muitas vezes eram "mascotes dos soldados", seguiam os militares por comida, por aventura, e acabavam sendo adotadas informalmente por esses regimentos. Acho que esse papel vai ficando mais claro ao longo do tempo, assim como a instrumentalização da infância dentro da guerra. Há combatentes voluntários da Guerra da Espanha, alguns que mentem a idade também. Todas essas estratégias se repetem na Primeira e na Segunda Guerra Mundial, nos conflitos mais regionais, no Vietnã, na Argélia. A União Soviética nunca recrutou menores diretamente, mas eles se engajaram em massa nesse combate contra o nazismo. Os nazistas, por exemplo, na Segunda Guerra, foram os únicos que recrutaram. Chegaram a recrutar crianças de 14 anos, adolescentes muito jovens, como 12, 14 anos. Meninas muito jovens também. E é um caso único.

Se trouxermos para conflitos contemporâneos, na Ucrânia vemos casos de adolescentes que se engajam: meninos que saem da Europa que não está em guerra. Houve casos na França de meninos que tentaram ir para o front ucraniano. Nem ucranianos eram, não tinham nenhuma ligação étnica, nacionalista, com isso. É uma questão de querer fazer parte de um conflito que eles enxergam como europeu. Em Gaza, temos uma atuação de crianças. Como são uma população extremamente jovem, isso acaba sendo uma das grandes problemáticas do conflito.
Como a França colaborou com o nazismo?
A França foi o único país que manteve uma soberania territorial. Foi dividida? Foi. Foi esquartejada praticamente, porque você vai ver seis, sete zonas diferentes de ocupação, com regras bastante diferentes. Mas toda a França é francesa ainda. Ela não foi anexada à Alemanha. Tem um governo que responde pelo território todo, menos a Alsácia-Lorena. Você tem um governo soberano, mas tem uma presença ostensiva, intensiva ao mesmo tempo, de militares estrangeiros. Mas complica um pouco mais, porque existiu uma decisão consciente, de colaborar com o nazismo. Foi uma escolha. Vai ter várias teses que eles vão usar para salvar a soberania francesa, para salvar o país de ser pilhado, tudo isso – mas foi uma escolha consciente para implantar uma ditadura.
A grande maioria dos franceses decidiu não escolher ou se adaptar (...) eles ficaram meio em cima do muro
Então, primeira coisa, temos a colaboração de Estado na França. É algo escolhido, é algo consciente, é algo que é oficializado perante a população. Existe uma colaboração administrativa imposta pela própria Alemanha, multas diárias, envio de dinheiro, de toda a produção econômica, agrícola. Existe uma pilhagem dos recursos franceses, e existem outros vários tipos de colaboração em que a sociedade civil vai ter uma escolha a fazer. A grande maioria dos franceses decidiu não escolher ou se adaptar, é o que chamamos de attentisme. "Esperismo", se formos traduzir. Essa parcela esperou o que ia acontecer e foi se adaptando ao cotidiano, então convivia com os soldados, não colaborava diretamente, mas também não resistia, eles ficaram meio que em cima do muro, grande parte da população. Mas muitos vão escolher colaborar. Você vai ter a colaboração política, que é entrar em partidos nazistas, próximos ao nazismo ou fascismo, partidos de extrema direita. Teremos a colaboração que eles chamam de sentimental, que são pessoas que vão acabar tendo relações afetivas com os alemães, sobretudo casos de mulheres com soldados alemães. A colaboração econômica foi enorme, gigantesca, as empresas faturaram muito com o esforço de guerra alemã vendendo para os alemães, tendo acesso facilitado a matérias-primas que não teriam nessa situação de guerra porque colaboraram.
Vamos ter a colaboração administrativa no sentido dos funcionários públicos que vão fazer com que a máquina francesa, a administração pública francesa, continue funcionando. Aí tem uma questão. Será que eles eram obrigados pela própria razão de Estado? Será que eles fizeram mais ou menos do que deveriam? Tem toda essa discussão. E a outra colaboração, que podemos dizer que é a colaboração máxima, que você não tem como dar desculpa: "ah, foi porque eu queria preservar a soberania francesa", "ah, foi porque eu precisava sobreviver". Não, é aquela colaboração em que você bota o uniforme alemão e vai lutar contra os inimigos dos nazistas.
(A 2ª Guerra) é um reset para muitas coisas na França
Qual espaço tem essa memória na política de hoje do país?
Eu acho que ela reaparece com frequência. Eu não vou dizer que ela é a principal, mas acho que ela é muito importante. Temos muitos monumentos no país todo, temos datas em que se comemora algumas datas-chaves da guerra, a guerra reaparece no discurso político. A questão da resistência, por exemplo, é algo que não pode ser tocado, é uma coisa meio mítica. Todo político francês tenta de uma forma ou outra, em algum momento ou outro, se filiar a essa herança da resistência. Então, é meio que fundacional para a França, vamos dizer assim, da Quarta (1946-1958) e Quinta República (a partir de 1958). A memória da Segunda Guerra é muito importante. Ela reaparece de tempos em tempos para mobilizar um lado ou outro. Ela está sempre presente quando estamos falando de resistência, do valor francês, da cidadania francesa, dos próprios direitos que se conquistam. É um reset para muitas coisas na França. Muitas coisas começam dali.

Como a França lida com a memória desse período?
Esse tema não é um tabu em relação à história. Os historiadores se debruçam sobre ele há muito tempo. Temos 50 anos de uma historiografia consolidada e muito densa. Mas há herdeiros diretos dessa tradição política do colaboracionismo, hoje em dia elegendo muitas pessoas, deputados, senadores, e tentando a presidência da França. O maior herdeiro dessa história toda é o antigo (partido) Front National, que se chama hoje Rassemblement National, ou Reunião Nacional em português, a família Le Pen e essas outras pessoas agora. Eles são muito antissemitas. Se os judeus não são o principal alvo hoje em dia, temos os imigrantes, como esse alvo racial. Tem todo esse medo que eles inventam da imigração, da substituição da população.
Essa referência é à ideologia?
À ideologia, sim. Essas pessoas são grupos de extrema direita, autoritários que muitas vezes negam o próprio Holocausto, negam os crimes de guerra da Segunda Guerra, negam muito o passado colonial.
E nos demais campos políticos?
Não é mais uma questão para o Estado francês, o governo francês admitir que colaborou. Isso desde os anos 90, quando Jacques Chirac vai fazer um discurso em que ele assume a culpa, vamos dizer assim, pelo Estado francês. Isso não é um tabu, e para o Macron muito menos. O Macron, inclusive, vai panteonizar – levar para o panteão dos grandes nomes da nação, onde os restos mortais da pessoa estarão nesse local, que é o panteão em Paris – um historiador, Marc Bloch, agora em junho, um historiador resistente judeu.
Essa memória da guerra sempre volta. Tivemos há pouquíssimo tempo, por exemplo, uma candidata à prefeitura de Marselha que usou o lema da Revolução Nacional, que é "Trabalho, Família e Pátria", como lema de campanha, como coisas que a França deveria recuperar. Ninguém ninguém usa (as palavras do slogan) nessa ordem inocentemente.
Essas reflexões se aplicam ao Brasil também?
Esse livro não fala só da Segunda Guerra e da França. Fala de um país democrático com sólida tradição democrática. Estamos falando de um país rico, industrializado, com sólida tradição democrática que sucumbe muito rapidamente ao pior do autoritarismo, possivelmente que vimos no mundo. É meio que um alerta sobre os discursos muito fáceis, sobre os inimigos que certos políticos criam como moinhos de vento, mas que as pessoas acabam aceitando, aderindo e o quanto o autoritarismo pode levar países à ruína. A França sai da guerra completamente destruída. Exaurida economicamente, politicamente, com milhares de mortos. A colaboração francesa, apesar de ter salvado a maior parte dos judeus, condenou à morte mais de 75 mil deles. Os mortos políticos, pelo ódio, por causa do ódio político. Então, é um alerta para os tempos que vivemos. Se esse livro fosse escrito 20 anos atrás, colocaríamos esse alerta como uma coisa um pouco mais abstrata; hoje em dia eu acho que ela é muito mais presente.




