
O jornalista Vitor Netto colabora com o colunista Rodrigo Lopes, titular deste espaço.
Um estudo preliminar coordenado pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) começa a dimensionar os impactos da enchente de 2024 no Rio Grande do Sul sobre a biodiversidade gaúcha. Os dados estão sendo apresentados durante um evento em Porto Alegre, que iniciou nesta terça-feira (9) e segue até quinta (11).
As análises iniciais indicam mudanças significativas na estrutura da paisagem e na qualidade ambiental das áreas afetadas. Entre os principais impactos identificados estão a perda de habitats naturais, alterações em corpos d’água e efeitos diretos sobre populações de fauna ameaçada de extinção.
A coordenadora-geral de Pesquisa e Monitoramento da Biodiversidade do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), Cecília Cronemberger, destaca dois exemplos preliminares que já puderam ser observados: a inundação facilitou a expansão das palometas (uma espécie exótica de peixe) nas lagoas costeiras e as obras pós-enchente podem prejudicar as áreas úmidas naturais, que são importantes para a recarga hídrica dos ambientes.
— As palometas são uma espécie predadora e afetam as espécies locais, pois não são nativas dessas lagoas, o que também prejudica a pesca. Temos projetos nas lagoas costeiras, estudando primatas, e também monitorando aves ali na 4ª Colônia. Os projetos estão espalhados por todo o Estado — explicou.
Metodologia
Os estudos reúnem pesquisadores e gestores ambientais para avaliar os efeitos das inundações sobre espécies, ecossistemas e áreas protegidas do Estado.
— Vamos ter, por exemplo, um projeto que estuda aves migratórias, outro que estuda os papagaios, o cervo-do-pantanal, anfíbios e répteis. Estão sendo feitos estudos para, em alguns casos, avaliar o tamanho populacional. Em outros, como o dos mamíferos aquáticos, estamos avaliando se o evento da enchente, que trouxe muito sedimento das lagoas costeiras para o oceano, veio acompanhado de poluentes e se isso os afetou. Outras pesquisas utilizam modelos matemáticos com modelagens climáticas — detalhou Cecília.
A iniciativa está em execução desde maio de 2025 e deve seguir até o fim de 2027. O projeto reúne cerca de 30 subprojetos, com oito centros de pesquisa e conservação do ICMBio, três coordenações e dezenas de parceiros.
— São pesquisadores de diversas universidades locais, ONGs e outras instituições que já atuavam na região. Como muitos já tinham dados de antes das enchentes, estamos voltando aos locais para buscar as espécies ameaçadas e comparar os resultados, analisando o uso do espaço antes e depois das cheias, além de verificar possíveis contaminações — comentou.
Metas e propósitos
Entre as metas previstas estão a consolidação de um diagnóstico abrangente dos impactos sobre espécies ameaçadas, a elaboração de modelos de previsão de risco para futuros eventos climáticos extremos e a definição de áreas prioritárias para restauração ecológica.
Segundo a coordenadora, também serão promovidos, entre julho e agosto, dois cursos de capacitação em sistema de comando de incidentes, em Porto Alegre.
— A partir disso, queremos compreender os impactos e pensar em protocolos. Estamos elaborando, por exemplo, um guia para o manejo de serpentes em situações de inundação. No caso das áreas naturais e das espécies, o foco é entender quais são as regiões prioritárias para restauração e conservação. Para onde as espécies vão em caso de inundação? Onde elas se abrigam? Esse tipo de pesquisa permite priorizar essas áreas — concluiu.


