
A obsessão da direita por tirar o PT do poder nas eleições de outubro pode fazê-la perder os parâmetros na reação aos áudios em que o senador e pré-candidato Flávio Bolsonaro (PL) pede dinheiro ao banqueiro Daniel Vorcaro.
Aliás, a julgar pelas respostas atabalhoadas dos postulantes que dividem com o senador os votos conservadores, parece que até os estrategistas de campanha foram pegos de surpresa pelas revelações do The Intercept Brasil.
De qualquer candidato sério, seriam esperadas manifestações de revolta, rompimentos e exigências por transparência e investigações. Romeu Zema (Novo) foi nesse sentido: classificou o episódio como “imperdoável” e “tapa na cara dos brasileiros”.
No day after, está pagando o preço. Os diretórios do Novo no Paraná e em Santa Catarina criticaram a reação de Zema. No Paraná, seu partido aposta em uma chapa conjunta com o PL para lançar o ex-deputado Deltan Dallagnol ao Senado. Em Santa Catarina, o Novo tem o ex-prefeito de Joinville Adriano Silva como vice da chapa de reeleição do governador Jorginho Mello (PL). Aqui, no Estado, integrantes da legenda também chegaram a defender Zema como opção para vice de Flávio.
O "fogo amigo" veio de vários lados: Carlos Bolsonaro (PL) acusou o ex-governador de ser traidor e “ultrapassar todos os limites”. O ex-deputado Eduardo Bolsonaro (PL) apontou posição “vil e oportunista”, lembrando justamente a posição do Novo gaúcho, de Zema como número 2 na chapa de Flávio.
A primeira reação de Ronaldo Caiado (PSD) foi intempestiva: lançou uma nota na qual cobrou respostas de Flávio e mais investigações. Mas não manteve a posição. Na sequência, em vídeo, minimizou o caso, classificando-o como “falha de ordem pessoal” e afirmando que, acima de tais problemas, o importante para ele é que o PT seja derrotado nas eleições.
Ora, quando adversários políticos passam a ser vistos como ameaça a ponto de justificar qualquer relativização ética, o debate público se degrada. A direita brasileira construiu boa parte de sua identidade recente ancorada justamente no discurso anticorrupção — haja vista, inclusive, as declarações de Flávio, dizendo que o escândalo do Master "era coisa do PT". Ao hesitar diante de um caso que exigiria, no mínimo, coerência, corre-se o risco de as críticas parecerem seletivas.
É certo que nenhum dos pré-candidatos da direita deseja perder o capital político bolsonarista, mas em algum momento evitar a ruptura será como tentar salvar alguém se afogando: os dois podem acabar afundando, abraçados.





