
O jornalista Vitor Netto colabora com o colunista Rodrigo Lopes, titular deste espaço.
Diversas organizações da sociedade civil lançaram, nesta quinta-feira (28), a 1ª Semana de Ação Climática de Porto Alegre (Climate Week Porto Alegre 2026). O evento ocorrerá entre os dias 20 e 27 de julho e debaterá a adaptação climática, a justiça socioambiental e a reconstrução resiliente diante dos impactos da crise climática no Rio Grande do Sul.
O ato de lançamento da iniciativa contou com a participação do embaixador André Corrêa do Lago, presidente da COP30.
Eventos como Semanas do Clima ocorrem em diversos lugares no Brasil e no Exterior. Qual a importância de se debater esse assunto em Porto Alegre?
Primeiro, a importância de trazer a percepção do quanto o tema envolve muito mais coisas do que se imagina. A primeira reação das pessoas é achar que mudança do clima é meio ambiente. A mudança do clima foi uma coisa descoberta por cientistas que acompanhavam o tema de meio ambiente. Só que quando você descobre uma coisa como a mudança do clima, você precisa combatê-la. Para combatê-la, você tem que envolver a sociedade, praticamente, inteira. Você tem que envolver a economia praticamente inteira dos países. Por isso que a mudança do clima se tornou um tema tão falado no mundo e tão polêmico, porque tem um impacto muito grande sobre a vida das pessoas e sobre a economia dos países.
Durante a COP30, vocês falaram muito da ideia de "mutirão". Esse debate "de todos os países" entra nessa ideia?
(A mudança do clima) é uma coisa tão ampla, que é totalmente ilusório achar que você vai conseguir centralizar o debate sobre o combate à mudança do clima. A ideia do mutirão é que cada um faz aquilo que sabe fazer na sua área, desde que o objetivo seja em comum e que as pessoas estão vendo onde querem chegar. A ideia é você liberar as pessoas para fazer da sua maneira aquilo que elas podem fazer melhor do que outros.
Qual o principal legado que a COP30 deixou?
Primeiro, o fato de ter envolvido tantas pessoas e das pessoas terem se reconhecido na COP30. Acho que se há uma fórmula mais simples de dizer o que eu considero que é o principal legado, acho que seria de deixar bem claro que a ação climática, e que a implementação, já tem todas as condições de avançar. Ou seja, não precisamos de mais legislação, de mais negociação para combater a mudança do clima. São 30 anos de COPs, são 10 anos do Acordo de Paris, ou seja, toda a base legal internacional já é suficiente para a ação. Tem muita gente que acha, e eu entendo que desanime, que diz que ainda falta isso e aquilo, que precisa daquela informação. Não, já tem o suficiente para avançarmos. E eu espero que a COP30 tenha deixado essa mensagem muito clara. Ou seja, as COP são muito úteis, acumularam muita informação para a maioria das coisas que precisamos fazer para combater a mudança do clima.
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Há uma percepção de que o debate realizados nas COPs, de modo geral, ficam reclusos entre os negociadores e não chega na sociedade. Ainda é um assunto distante da população?
Nós tentamos aproximar. Acho que há terminologias que são usadas em excesso para garantir, digamos, a "superioridade" daqueles que cuidam do assunto. Então, o vocabulário que é usado nas negociações de mudança do clima, muitas vezes, em vez de trazer, afasta as pessoas. É um problema muito grave de um mundo especializado. Isso procuramos combater justamente pela inclusão.
Procuramos incluir o máximo de pessoas dentro da COP, justamente para não se intimidar. Mas existem realmente várias pessoas que gostam de complicar aquilo que estão fazendo para manter o seu controle ou o seu poder.
Acho que justamente como é uma questão que envolve todo mundo, que envolve a economia, a sociedade de um modo geral, a política, a geopolítica, todo mundo tem que entender ao máximo. E temos que simplificar, permitir que as pessoas entendam e se aproximem.
Neste período pós-COP30, quais as principais ações que a presidência está colocando em prática?
Acho que podemos distinguir (primeiro) a negociação formal, onde só os países é que podem discutir. Tivemos (em segundo) a agenda de ação, que convidou todos os setores que estão já definidos pelo balanço global do Acordo de Paris, de o que nós temos e podemos fazer. Aí são cidades, Estados, setor privado, ciência, academia, esse grupo também teve resultados muito significativos. E (em terceiro) a participação social, que eu acho que é uma coisa que complementa a agenda de ação, que ajuda a traduzir para a população em geral. E tem a dimensão política, que, evidentemente, o presidente Lula é um especialista no assunto. Nessas quatro dimensões, eu acho que obtivemos uma série de coisas que estamos tentando manter vivas até a próxima COP. Na agenda de ação, conseguimos combinar com os turcos e com os australianos, e vai ter a mesma estrutura. Isso já é um legado incrível, porque deu uma ordem, uma verificação, um monitoramento do que acontece nas iniciativas das pessoas. Na parte política, o presidente Lula lançou os dois "mapas do caminho". O para a transição para o fim do uso de fósseis, e o mapa para o fim do desmatamento, que a estamos desenvolvendo, ouvindo as pessoas e que vamos redigir em agosto e entregar em setembro, para dar tempo das pessoas lerem e poder discutir na COP31. E temos várias ações na área de adaptação.
Por isso que Porto Alegre é a cidade simbólica do Brasil com relação à adaptação (climática), porque vimos tudo o que poderia ter sido evitado, ou seja, como as cidades podem fazer de maneira a evitar o pior da mudança do clima.
Estamos também editando um capítulo adicional ao mapa do caminho de financiamento de como chegar a US$ 1,3 trilhão de a partir de 2035, que é um adendo ao mapa do caminho que foi publicado no ano passado. E temos o acelerador, que é uma ideia que saiu da COP30 (e está em desenvolvimento), que é como nós vamos estimular duas ou três tecnologias ou metodologias que tem um potencial de multiplicar e de acelerar de maneira brutal o combate à mudança do clima. Vai envolver tanto ciência como o setor privado, mas envolve também academia. A COP do Brasil também expandiu a presença de enviados especiais para garantir a participação (da sociedade). As Conferências anteriores foram muito refratárias na sociedade civil. Esse elemento aí é uma coisa que foi muito brasileira também, os nossos 22 enviados especiais. Mas eu acho que é uma coisa importante do momento em que o país se expõe, como o Brasil se expôs, de mostrar uma sociedade que tem gente interessante em todas as áreas, por exemplo, isso daí é uma coisa que é importantíssima do mundo entender, porque queremos muito que o Brasil seja visto como um país de soluções para o combate de mudanças do clima.
O senhor falou sobre o financiamento de US$ 1,3 trilhão. Sobre o TFFF (Tropical Forest Forever Facility, ou Fundo Florestas Tropicais para Sempre), qual estágio ele está agora?
Floresta é um tema muito complexo e que, de um modo geral, o Brasil sempre evitou falar mundialmente. O Brasil sempre teve uma posição soberanista com relação a isso, de temores de que flexibilidades poderiam criar algum tipo de fragilidade, então, o que evoluiu, eu acho, para nós discutirmos essas questões, foram essencialmente duas coisas. Um é a urgência climática, ou seja, se você está vendo que a coisa está avançando muito mais rápido do que o previsto e que a ciência está te dizendo que você tem poucos anos para fazer as coisas, não adianta ser perfeccionista. Você tem que fazer as coisas da melhor maneira possível com os meios que você tem hoje. O outro elemento é que o Brasil passou a ter especialistas de Brasil. Hoje o Brasil se conhece de tal maneira que esse temor de soberania é completamente exagerado. Então o TFFF veio como uma ideia de resolver financiamento para o tema de conservação florestal. Floresta tem que ter soluções financeiras muito diferentes diferentes na dimensão de combate ao desmatamento, na dimensão de conservação e na dimensão de restauração. O TFFF, para ser, digamos, ideal no seu projeto, precisa, dependendo do especialista, a discussão é em torno de US$ 20 bilhões de Estados, ou seja, de fundos soberanos, para ser a base para você conseguir mais US$ 100 bilhões do setor privado. Mas já uma primeira etapa muito importante pode ser feita com US$ 10 bilhões. Nós estamos em torno de US$ 8 bilhões. Então, até o fim do ano, há um desejo, um esforço muito grande no Ministério da Fazenda, no Itamaraty, do próprio presidente, para tentar até o fim do ano, se chegar a US$ 10 bilhões, que isso já permitiria começar essa estrutura que permitiria o TFF funcionar.

No seu sentimento pessoal, qual o principal aprendizado da COP30?
Nesse contexto que todo mundo diz que a mudança do clima agora passou para segundo plano, absolutamente não é verdade. Quanto mais você trata do tema de mudança do clima, mais você vê que ele é central e mais você vê que existem soluções dos mais diversos lugares do mundo extremamente interessantes.






