
Em fevereiro de 2023, quando acompanhei a visita do presidente Lula a Joe Biden, no Salão Oval da Casa Branca, os EUA e o mundo eram outros.
A posse recém havia ocorrido e o Brasil (e o planeta) ainda tentavam decantar os efeitos político dos ataques de 8 de Janeiro. Logo, democracia era o tema central da reunião. Outro assunto fundamental foi a preservação da Amazônia e o combate às mudanças climáticas, prioridades de Lula e Biden, que encontravam convergência no entendimento que países ricos têm obrigação de ajudar na conservação da floresta. Na pauta também estão o desenvolvimento econômico e a guerra na Ucrânia.
Três anos e três meses depois, todos esses assuntos foram superados pela agenda implementada por Donald Trump, que assumiu no ano passado e virou as relações internacionais de cabeça para baixo: dinamitou pontes com aliados, disparou sua metralhadora em forma de tarifaço contra países amigos, bombardeou a Venezuela, capturou seu presidente e iniciou uma guerra da qual não consegue sair, no Irã.
Em quase nada Lula e Trump concordam. Mas a reunião deve ser cordial. Será um encontro de trabalho - não uma recepção de Estado, como a que o americano concedeu ao rei Charles III, na semana passada, por exemplo, mas também não será o show de horrores da visita de Volodymir Zelensky, que praticamente foi expulso da Casa Branca. A diplomacia deve operar, e não haverá intercorrências.
O uso de intérpretes ajuda a dar tempo para respostas calculadas de ambos os lados — tanto Trump quanto Lula apreciam o improviso. A reunião deve ser uma continuidade do encontro entre os dois na ONU, em setembro, quando Trump saiu dizendo que "houve química" com Lula, que respondeu que, na verdade, seria uma "indústria petroquímica". Não se surpreenda se essas expressões voltarem a aparecer nesta quinta-feira (7) nas entrevistas. Longe das câmeras, será morno.
Na comparação com Biden, em 2023, sai democracia e meio ambiente, e entram na pauta o tarifaço sobre produtos brasileiros, as investigações americanas sobre o Pix, o interesse do governo americano por terras raras e minerais críticos e uma parceria no combate ao crime organizado. A própria composição da comitiva indica a estratégia: além do chanceler Mauro Vieira (óbvio), acompanham Lula o ministro da Fazenda, Dario Durigan; e da Indústria e Comércio, Márcio Elias Rosa (tarifaço), da Justiça, Wellington César Lima e Silva, e o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues (parceria para combate ao narcotráfico) e o titular da pasta de Minas e Energia, Alexandre Silveira (terras raras).






