
O pacote de R$ 11 bilhões lançado pelo governo federal nesta terça-feira (12) fortalece investigação, perícia, inteligência e sistema prisional. Mas há um ponto central que não pode passar batido sob pena de o Brasil continuar enxugando gelo no tema da segurança: o crime organizado brasileiro deixou, há anos, de ser apenas nacional. O PCC e o CV operam em rede continental — e, em alguns casos, global.
Ainda que robusto financeiramente, o plano tende a ser insuficiente se não houver integração externa. Daí, a importância de o tema ter sido tratado entre os presidente Lula e Donald Trump, no encontro da semana passada, na Casa Branca. Muito mais importante do que a quimera sobre se facções brasileiras devem ou não ser consideradas grupos terroristas é a necessidade de cooperação. Aliás, qualquer interconexão entre Estados neste tema costuma ser muito mais lenta do que a articulação internacional entre bandidos.
A cooperação reforçada com os Estados Unidos, com troca de informações em tempo real e uso de inteligência para monitorar cargas, já existe. O que precisa é ser reforçada e, sobretudo, blindada de rixas ideológicas dos governos de turno.
Também é necessária maior parceria com Interpol, com foco no tráfico de drogas na América do Sul, com suporte técnico da Polícia Federal brasileira e a criação de uma "força integrada".
Nada, entretanto, será tão importante quanto zelar melhor pelas fronteiras. O Brasil possui mais de 16 mil quilômetros de grandes e porosos nacos terrestres binacionais, em áreas de baixa presença do Estado.
Assim, a cooperação os vizinhos deve ser elemento central, o que inclui operações conjuntas de inteligência, integração de bases de dados, monitoramento aéreo e fluvial, acordos de extradição mais rápidos e combate conjunto ao tráfico de armas.
Hoje, PCC e PV operam ou mantêm conexões no Paraguai, na Bolívia, no Peru, na Colômbia e na Venezuela. O tráfico de cocaína, por exemplo, depende de rotas que começam nos Andes, passam pela Amazônia e chegam aos portos brasileiros com destino à Europa e à África. O fortalecimento da atuação da PF e Polícia Rodoviária Federal (PRF) em portos, como Santos, Paranaguá e Rio Grande, aduanas e em pontos cegos das fronteiras é fundamental. Há também uma dimensão geopolítica relevante: organizações criminosas ocupam espaços deixados pelo Estado em regiões estratégicas - além da Amazônia, da Tríplice Fronteira, também no Pampa.
O combate ao crime organizado passa por: scanners portuários, cooperação aduaneira, inteligência marítima, acordos com Europol e União Europeia.
O crime organizado tornou-se globalizado também pelo dinheiro — daí a necessidade de se utilizar ferramentas, como inteligência artificial, para asfixiá-lo. Facções utilizam empresas de fachada, criptomoedas, contas em paraísos fiscais e redes internacionais de lavagem de capitais.
Tudo isso deixa rastro. Mas não será possível seguir o dinheiro sem cooperação entre bancos centrais, unidades de inteligência financeira e organismos internacionais. Sem acordos de rastreamento patrimonial e compartilhamento de dados, líderes criminosos continuarão movimentando recursos mesmo presos. Principalmente em uma região desigual como a América Latina, onde o crime organizado se aproveita justamente das assimetrias institucionais e econômicas entre os países.






