
O jornalista Vitor Netto colabora com o colunista Rodrigo Lopes, titular deste espaço.
Caco Barcellos entrou, recentemente, em território iraniano em meio ao conflito entre o país e os Estados Unidos. O jornalista da TV Globo conseguiu uma autorização rara para cobrir a guerra, e a reportagem foi exibida em abril, no programa Fantástico.
Durante sua passagem pelo festival Fronteiras do Pensamento, ocorrido no último final de semana, em Porto Alegre, ele compartilhou detalhes da experiência.
O jornalista relatou como iniciou o processo de solicitação de visto em meio a centenas de outros pedidos de profissionais do mundo inteiro. Segundo Caco, enquanto a imprensa ocidental estava saturada de opiniões e análises, seu objetivo, como repórter, era mostrar o cotidiano no interior do país.
— Eu sou repórter, um gênero pouco conhecido. Acho que pouca gente sabe diferenciar esse gênero dos demais, as pessoas acham que somos todos iguais. Mas o repórter não emite opinião nem juízo de valor. Vamos para a rua aprender e registrar, sobretudo, aquilo que os outros não querem ou onde não querem ir. Se a imprensa do mundo não está lá, que tenho que ir para lá — enfatizou.
Segundo Barcellos, o processo começou com a difícil tarefa de convencer os aiatolás a permitirem seu acesso. Após dois meses de negociações com a embaixada iraniana em Brasília, o pedido foi aceito.
— Eles disseram: você leva o microfone onde ninguém vai e o entrega para quem não tem voz — explicou.
O jornalista lembrou que cobriu o conflito usando uma bengala, devido a um problema na perna direita que ainda o acompanha.
— Alguns colegas diziam que eu era louco. A minha filha dizia: "Pai, você tá com a perna quebrada". E eu disse: "Estou cheio de dor aqui na sala, reclamando um pouco da dificuldade de andar pela cidade. Vou ter a mesma dificuldade lá e, lá, de alguma maneira, vou me ser útil, vou aprender".
Caco também destacou o que mais chamou sua atenção na sociedade iraniana:
— É um país jovem, a maioria das pessoas tem cerca de 30 anos. A quantidade de engenheiros, por exemplo, me impressionou muito. Eles convocaram esses jovens para produzir tecnologia de defesa, como os drones. Alguns correspondentes de guerra conhecidos me ofereceram coletes à prova de balas e capacetes de última geração... Quando cheguei lá, a primeira coisa que fiz foi aposentar tudo isso. Se um míssil destrói três prédios, o meu capacete vai resolver? — questionou.
Na noite em que se encerraria o prazo para uma possível retaliação e enquanto o presidente Donald Trump dizia que poderia "acabar com uma civilização", Caco estava nas ruas com a população, apesar de colegas perguntarem onde ele se esconderia.
— Decidi ficar ao lado das crianças que estavam na rua, algumas no colo das mães. À meia-noite, havia uma multidão esperando que Trump "mandasse a morte", mas ela não veio. Tocaram o hino nacional e cantaram. Foi um momento muito forte e emocionante — concluiu.



