
O jornalista Vitor Netto colabora com o colunista Rodrigo Lopes, titular deste espaço.
O Partido Democrata divulgou, nesta quinta-feira (21), um relatório detalhando os motivos da derrota nas eleições presidenciais de 2024, quando Kamala Harris perdeu o pleito para o republicano Donald Trump.
O documento, chamado de autópsia, foi elaborado pelo estrategista democrata Paul Rivera a pedido de Ken Martin, presidente do Comitê Nacional Democrata (DNC). A publicação do texto estava envolta em mistério, já que o DNC reteve o relatório até os últimos minutos. A divulgação se arrastou por meses, gerando fortes pressões internas sobre o presidente para que os dados fossem liberados.
Uma nota de esclarecimento no início observa que o texto reflete as opiniões do autor e não a posição oficial do Comitê. Além disso, o arquivo com 192 páginas parece ser uma espécie de rascunho, já que conta com anotações e comentários de revisão pendentes.
Mas o que diz o documento?
O texto afirma que, desde a vitória de Barack Obama em 2008, o partido tem "oscilado entre a estagnação e o retrocesso", perdendo terreno de forma constante.
“Essas perdas são resultado direto de oportunidades perdidas de investir em nossos estados, condados, partidos locais e candidatos”, diz o relatório.
Sobre a apressada substituição de Joe Biden por Kamala Harris, a apenas três meses e meio das eleições, a "autópsia" afirma que a campanha do então presidente e a Casa Branca falharam em preparar Harris para vencer o pleito.
O relatório aponta, por exemplo, que antes das eleições de meio de mandato (midterms) de 2022, a Casa Branca pediu ao Partido que realizasse uma pesquisa sobre o desempenho da então primeira-dama, Jill Biden. O mesmo, contudo, não foi feito em relação a Harris, que já enfrentava questionamentos difíceis na pauta da imigração.
“Como resultado, no momento da mudança de candidato, a equipe descobriu que não havia pesquisa própria sobre a vice-presidente para orientar o desenvolvimento dos instrumentos de campanha”, diz o diagnóstico.
Em outro trecho, o documento relata que faltou empenho da Casa Branca para rebater mensagens distorcidas sobre Harris, como a falta de apoio para melhorar a imagem dela na opinião pública.
Sobre Trump, a autópsia diz que houve uma falha ampla em não relembrar os eleitores sobre os feitos negativos — na visão dos democratas — de seu primeiro mandato.
Especificamente sobre Harris, grande parte das críticas aponta para a tendência da campanha de presumir e aceitar certos cenários como garantidos. O texto cita como exemplo as lacunas deixadas em determinados Estados e públicos que necessitavam de atenção, sob a falsa premissa de que outras áreas garantiriam a vitória.
Há também duras críticas quanto aos gastos da campanha.
O que ficou de fora?
Curiosamente, o relatório não cita as preocupações com a saúde ou a idade de Biden. Também foram omitidos o impacto da guerra em Gaza, que na época foi um grande assunto na campanha dividindo democratas e republicanos, e o fato de Harris ter sido escolhida para assumir a chapa sem passar por qualquer processo de eleições primárias do Partido.




